Calvário: Rejane Negreiros prefere a verdade e opta por ser jornalista

É cada vez mais raro o posicionamento de jornalistas em defesa dos direitos individuais e da equidade jurídica, sobretudo em uma conjuntura de ataques mundiais a esses valores até bem pouco tempo considerados universais.

Rejane Negreiros é uma delas. Consciente do seu papel social de jornalista, ela tem sido um respiro no mundo poluído dominado pela informação por uma imprensa majoritariamente influenciada pelo pensamento único autoritário e conservador.

Mas, hoje, isso é o que menos importa a JORNALISTAS – assim mesmo, em caixa-alta – que escolheram o ofício de informar à população de maneira ética e responsável.

Já fui entrevistado algumas vezes por Rejane Negreiros e pude notar, tanto em suas perguntas como em suas preocupações, uma aura de jornalista que é impossível de enxergar em jornalistas-empresários do tipo Nilvan Ferreira, Luís Torres ou Gutemberg Cardoso.

Crítica dos métodos lavajatistas e das condenações antecipadas, além de firme defensora do amplo direito de defesa, a jornalista Rejane Negreiros manifestou, em comentário no Facebook do autor deste blog, sérias objeções à denúncia do Ministério Público contra vários acusados na Operação Calvário, tendo por base a denúncia feita por procuradores do Ministério Público da Paraiba.

Segundo Rejane, que é professora de jornalismo, editora-chefe e apresentadora do principal programa de programa de notícias da TV Manaíra, afiliada da TV Bandeirantes em João Pessoa, processos como os da Calvário “tem que ser jurídico, não político”:

Colocadas em um peça de acusação, viram objeto de manobra da opinião pública. Texto sem contexto. A  acusação é séria e precisa de investigação rigorosa. Mas o processo tem que ser jurídico, não político. Os áudios são texto sem contexto.

Rejane ainda estranhou o fato de que a “decisão da justiça foi toda baseada na delação e veio toda entre aspas. Estranho.”

Dando continuidade à discussão, Rejane Negreiros colocou o dedo na ferida:

Tenho dito sempre. Delação é peça acessória. Não é prova material. Indica um caminho para a investigação apenas. O problema é que o MP e o Judiciário têm usado a delação equivocadamente com propósitos que podem ser questionáveis. Os áudios em questão podem ser meios de prova? Onde estão os áudios na íntegra? Do jeito que estão sendo usados, recortados, soam tendenciosos.

Rejane Negreiros mostra que não é contra a atuação do Ministério Público.

O MP está fazendo o que lhe cabe: acusar. A questão é que a acusação precisa ser bem feita. Se houver fragilidades, pode alimentar aquilo que ninguém quer : a impunidade. O que estou dizendo é que preciso meios de prova que não deem margem à dúvida : depósitos, anotações, transferências, enriquecimento ilícito. Resumindo: delação por si só é fofoca. A justiça, por sua vez, não pode acatar pura e simplesmente uma denúncia sem que esta não tenha o devido respaldo e fundamento legal, ou estará cometendo injustiça. Eu defendo o devido processo legal em nome da nossa democracia.

Perfeito!

Pois é. É desse jornalismo questionador que o Brasil e o mundo precisam cada vez mais. Nem antecipadamente contra, por razões inconfessáveis, nem antecipadamente a favor. Não embarcar na onda moralista e ser capaz de colocar seu trabalho de jornalista, não em favor de políticos A ou B, mas da verdade.

Voltei a ter orgulho dos nossos jornalistas, daqueles que não se confundem com os negociantes de opinião e informação que povoam a nossa imprensa, mas daqueles que, em busca da verdae, são capazes de remar contra a maré.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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