Piancó

Na última vez que conversei com Marcelo Piancó ele já estava numa cama do Hospital Laureano prestes a iniciar o tratamento de quimioterapia que os médicos prescreveram.

Quando entrei no quarro, Rubens Nóbrega já estava ao lado dele, sentado numa cadeira. Tínhamos combinado de chegar juntos, mas eu me atrasei uns 10 minutos porque errei a ala do hospital.

Piancó ainda conseguia sorrir, mas a tensão da descoberta recente cobria suas feições. Ele nos contou que uma súbita falta de ar o surpreendeu durante a última viagem que fez ao sertão. De medico em médico, Piancó acabou num oncologista e foi assim que descobriu o câncer que lhe consumia o fígado e já havia chegado aos pulmões.

Conversamos uma meia hora e nos despedimos. Eu ainda disse, confiante nos feitos da medicina, mas sem saber ainda da gravidade do estado de saúde do amigo, que comemoraríamos sua recuperação na mesma mesa do Armênio, cercado de chopp e do carpaccio de salmão com mostarda que ele nos apresentou e que eu também virei fã. E lembrei da promessa que fizemos de bebermos juntos uma garrafa do Flor De Caña, um rum nicaraguase que Piancó conhecera quando viveu na América Central.

Enquanto caminhávamos até o estacionamento do Laureano, eu e Rubens fomos nos dando conta de que as esperanças de cura que a medicina hoje oferece à humanidade talvez não servissem para impedir a morte de Piancó. Descobrimos hoje que os prognósticos sobre as possibilidades de cura para o nosso amigo estavam tristemente certos.

Eu, ele e Rubens planejamos por meses produzir um programa de comentários e entrevistas pela internet sobre política, mídia e cultura, projeto que não foi em frente porque na Paraíba não existe espaço para empreendimentos de comunicação como o que planejávamos.

Desfrutei muito pouco da generosidade e da inteligência de Piancó, porque, apesar de conhecê-lo há décadas, dele infelizmente me aproximei tardiamente.

Sentirei falta de sua prosa fluida e elegantemente bem construída, de sua poesia, eclética na forma, mas, na falta de uma expressão que sintetize o seu fazer poético, cheia de carícias estéticas nesse mundo cada vez mais duro, rançoso e sem esperança.

Piancó nos deixa no início de uma travessia, no fim da qual não temos certeza se estaremos todos. Por isso, as últimas palavras escritas deixadas por Piancó revelam a inteireza do homem generoso que o mundo perdeu.

Apesar de falar da estranheza do privilégio de se saber à beira da morte, Piancó foi capaz de agradecer pela vida que teve, e nos mostrar esse outro privilégio maravilhoso, que poucos alcançam, que é saber-se estar no mundo.

CARTA ESCRITA POR PIANCÓ

Depois que vi o resultado do laudo dos exames, acho que só me resta pedir uma boa morte e me despedir de vcs, agradecendo por tudo mesmo. Não fiquem triste com o que estou escrevendo, eu tive uma vida melhor e maior do que merecia. Saber que vai morrer é um privilégio estranho, mas não deixa de ser medonho, principalmente quando a data está muito em cima. Eu vejo minha morte no olhar dos médicos, na espera de cada procedimento e principalmente quando estou só. Eu não estou desistindo, ninguém desiste de uma luta que nao vai haver. Valeu amigos, continuem por mim.
Marcelo Piancó

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Um comentário em “Piancó

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