O lucro ou a vida? Breves considerações sobre nossa “elite” e sobre o sentido de comunidade da União Europeia

Os ratos começam a abandonar o esgoto e a se mostrarem em sua inteireza de roedores da condição humana.

Roberto Justos, Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, e tantos outros empresários que propõem o fim da quarentena, o sacrifício (dos outros) para não atrapalhar suas expectativas de lucro, são os exemplares do idiotismo egoísta parido pelo bolsonarismo, esse fascismo à brasileira que hoje governa o Brasil.

Esse encontro não-casual entre um presidente que já demonstrara ter aberto desapreço pela vida de quem pensa diferente e essa elite de mentalidade construída por séculos de escravidão, parece ter aberto a caixa de Pandora e liberado, em palavras e ações de governo, os desejos mais recônditos de formalizar o apartheid social que sempre existiu em nosso país. Eis que se esses empresários se mostram tão coisificados quanto os escravos que desejam um dia ter de volta.

O que são 5 ou 7 mil mortos diante dos prejuízos causados à economia de suas empresas, desde que, claro, esses distintos senhores com mais de 60 anos, nem seus filhos que não precisam trabalhar, não façam parte dessa estatística mórbida?

Acho que a família do dono do banco Santander nem a do ex-presidente do Real Madrid, mortos pela Covid-19, não concordariam, hoje, com o cinismo desse argumento de que a doença mata tanto quanto uma gripe comum. A diferença é que, como é por demais sabido, a infecção por coronavírus se espalha com imensa rapidez e os casos graves de Covid-19, por conta do grande número de pessoas acometidas de grave crise respiratórias ao mesmo tempo, podem levar à morte muita gente por conta da impossibilidade de todas serem adequadamente atendidas. E quanto maior for o contágio, mais gente precisará de leitos com respiradores para escaparem de uma alta probabilidade de morrerem. Essa é a diferença da Covid-19 para uma gripe comum.

E se as imagens dantescas vindas da Itália, dos caixões que se amontoam com os mortos sem poderem ser enterrados, ou os relatos sobre a difíceis escolhas dos médicos de deixar que os idosos morram para salvar os mais jovens, se nada disso é capaz de convencer esses empresários, que pressionam o presidente da República e seu séquito de ignorantes irresponsáveis que governam o país, é porque parte da chamada “elite” brasileira – a maior parte? – perdeu por completo qualquer sentido de coletividade, se é que um dia teve algum.

Ora, se a Europa está agora consumidas pelo “salve-se quem puder”, incapaz de colocar em prática o sentido de comunidade para a qual foi criada a União Europeia, isso mostra que a integração é uma fraude, porque só funciona para integrar mercados de bens e serviços. Quando o sistema financeiro europeu precisou ser salvo da crise de 2008-2009, à custa de muito desemprego e empobrecimento, o banco central europeu funcionou com perfeição.

Agora, quando os cidadãos comuns da Europa precisam que a integração funcionepara salvar suas vida, eles foram abandonados para morreram à míngua. Onde está a ajuda alemã, o país mais rico da Europa, à Itália e à Espanha. Ironicamente (e bota ironia nisso!) os únicos que apareceram para expressar solidariedade ao desespero de italianos e espanhóis, solidariedade não apenas retórica, mas na forma de ajuda material e humana, foram a China, a Rússia e (vejam só!), a pequena Cuba, com seus médicos transnacionais.

Isso nos diz algo?

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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