Homilia de padre Waldemir, de Mandacaru: “Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância! E não alguns”

É domingo de Páscoa. Então, uma boa oportunidade para refletir sobre o significado da morte de Jesus foi me oferecida por um vídeo que um amigo me envio logo cedo pelo zap.

Trata-se de uma homilia do padre Waldemir, de Mandacaru, na qual ele tenta demostrar que o exemplo de Jesus não “pode ser tido como modelo de sofrimento”, de martírio, e que Jesus não veio ao mundo “para sofrer”, mas “para que todos tenham vida”.

Jesus sofreu ao ser crucificado, mas não sofreu mais que os torturados e mortos durante as ditaduras latino-americanas, entre eles muitos padres e frades da Igreja Católica. Algumas dessas pessoas tiveram todas as unhas e dentes arrancados durante dias de tortura? Ou os pobres que passam a vida nas periferias das grandes e médias cidades, desassistidos?

Jesus foi crucificado como tantos outros foram pelo Império Romano, aliás, Jesus morreu na companhia de outros dois, também crucificados. Sei que isso pode soar um tanto desrespeitoso porque parece que a intenção é diminuir o sofrimento do Cristo. Não, de jeito nenhum, era uma morte terrível morrer crucificado. Terrível.

A questão que o Pe. Waldemir nos propõe refletir, entretanto, é outra. Para ele, o mais importante não é saber como Jesus morreu, e sim como ele viveu. Ao entendermos isso podemos entender os motivos que explicam porque Jesus morreu.

Diz o padre:

“Jesus quis reunir todos os homens num projeto que fosse digno do seu Pai. Chamou a humanidade para a fraternidade, para a justiça, para a paz, para o amor, para a bondade.”

A morte de Jesus, então, é resultado do perigo que sua poderosa mensagem de igualdade despertou para o poder político e religioso de sua época: Porque para defender as vítimas do mundo [Jesus] denunciou o anti-Reino.

Para o Pe.Waldemir, Jesus morreu não por desprezar a vida, mas por amá-la, mas amá-la de um jeito que, para ele, não era aceitável que fosse desfrutada apenas por alguns poucos.

“Eu vim para que todos tenham vida, e vida em abundância! E não alguns. Jesus não assume a cruz para exaltar a dor e a humilhação, a cruz foi consequência de uma mensagem suprema de libertação, que incomodou os detentores do poder do seu tempo. Então, só podemos entender a cruz de Jesus na medida em que a gente vai se colocando a serviço, quem se coloca no segmento de Jesus: ‘Segue-me. Vem e segue-me!'”

O padre finaliza sua homilia com uma síntese do significado que tem, para ele, seguir Jesus:

“Crer em Jesus é crer no caminho que ele trilhou nesse mundo. E seguir Jesus, renunciar a si mesmo, não significa: ‘quem quiser me segui tome a sua cruz e segue-me’. Então, seguir Jesus não significa mortificar-se sem motivos, castigar-se, anular-se. Não se pode confundir a cruz de Cristo com uma falsa visão de sofrimento. Jesus não ama o sofrimento, não deseja e não quer o sofrimento para ninguém, porque o sofrimento é ruim e Jesus não quer nem para si, nem para os seus filhos e filhas”.

Comentários de ódio e desesperança

Muitos foram à página da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, no YouTube, apenas para criticar o padre – assim como fazem também recorrentemente com o Papa Francisco – incomodados com o Jesus libertador que ele nos apresenta, certamente não vivem o exemplo de sacrifício que associam à imagem do Cristo. Esses, sequer se esforçam para entender  a reflexão teológica que o padre Waldemir propôs.

Não foi exatamente surpreendente constatar que os ataques de puro ódio desferidos contra uma mensagem de amor e solidariedade, certamente dos que se acham que a mensagem de Jesus se tornou propriedade deles, e do quanto a própria imagem que fazemos do Cristo nos divide hoje. Debates teológicos são comuns entre especialistas e estudiosos, como quero crer sejam padres e pastores.

Lendo os comentários, foi inevitável concluir que é cada vez mais evidente que Jesus foi capturado por aqueles que, dizendo falar em seu nome, pregam um Jesus cujo exemplo maior é do sofrimento, e não de amor à vida, como a nos dizer que os sofrimentos da vida glorifica o sofredor e que, portanto, o sofrimento é bom.

Esse Jesus capturado está hoje a serviço da riqueza, do enriquecimento pessoal, ao individualismo, do egoísmo, da falta de solidariedade, um Jesus que aplaude a desigualdade e vê na acumulação de bens e dinheiro a manifestação de sua escolha.

Não tenho dúvida que a parte da homilia do Pe. Waldemir que causou mais incômodo a esses fariseus não foi a defesa que ele faz de que o exemplo maior de Jesus não foi a sua morte, mas uma vida cujas escolhas e defesa dos mais fracos o levou à crucificação. Incapazes de debater qualquer ideia teológica ou política, atacam tudo que cheira à solidariedade e à igualdade.

Retire essas ideias da mensagem de Jesus e nada sobrará, a não ser um amor próprio, egoísta e, portanto, vazio de significado e de esperança.

Afinal, Deus não é amor?

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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