Uma nova Camará? Omissão do governo João Azevedo põe barragem Pedra Lisa em perigo

A barragem Pedra Lisa está ameaçada de rompimento.

Localizada no município de Imaculada, cidade do semiárido paraibano que fica a 65 quilômetros de Patos e a 340 de João Pessoa, a barragem foi inaugurada no dia 28 de junho de 2018, e tem capacidade para acumular quase 5 milhões de m² e beneficia uma população de 13 mil habitantes.

Antes da construção barragem, a população a região penava com a falta d’água em tempos de seca. Essa obra, assim como tantas outras, só foi possível em razão da existência do Orçamento Democrático milhões foram aplicados nas cinco obras.

Pois bem, como mostraram matérias do Sistema Paraíba (aqui e aqui), a barragem Pedra Lisa, em razão das fortes chuvas, correu risco de rompimento depois das fortes chuvas do mês de abril. “A AESA [Agência Executiva de Gestão das Águas] constatou que o reservatório pode romper após ter ultrapassado a capacidade hídrica” e que há “um plano emergencial está em andamento para garantir a segurança de moradores de possíveis áreas de alagamento.”

O que as matérias publicadas na nossa imprensa sobre o caso não informaram, certamente porque não procuraram saber, é que essa situação poderia ter sido evitada pelo atual governo caso o governador, que era o responsável direto pela execução e fiscalização da obra quando ela foi construída, e seus assessores diretos, tivessem dado ouvidos aos alertas que membros do Orçamento Democrático de Imaculada fizeram sobre problemas estruturais na construção do reservatório.

Segundo denunciou o BlogdoTiãoLucena na última teça (28), um dos conselheiros do Orçamento Democrática de Imaculada, “revelou que o secretário Deusdete Queiroga Filho, dos Recursos Hídricos, foi avisado no mês de agosto do ano passado sobre a erosão que já naquela época era acentuada” , e, apesar de uma equipe ter sido enviada pelo secretário para vistoriar a obra, “disseram que tudo estava em ordem e que não havia a menor possibilidade de a parede da barragem romper.”

Como se trata de uma denúncia gravíssima que não interessou à nossa imprensa, que até agora não deu nenhuma atenção, consegui o contato do conselheiro do OD de Imaculada, e entrei em contato com ele via Whatsapp.

Trata-se de Ivanildo Pereira de Sousa, 49 anos, vigilante efetivo da Prefeitura de Imaculada. Ivanildo é conselheiro do Orçamento Democrático da 11ª Região, onde se inclui a cidade de Imaculada.

Ivanildo Pereira de Sousa

Ivan, como é mais conhecido, lembra a luta que foi para que a obra finalmente saísse do papel e destaca o papel de outro cidadão de Imaculada, Edmilson Soares – não confundir com o deputado homônimo, idealizador dessa luta antes mesmo de Ricardo Coutinho se tornar governador.

A criação do Orçamento Democrático virou uma oportunidade para reivindicar a construção da barragem, antigo sonho da cidade de pouco mais de 10 mil habitantes.

Ivanildo conta que, quando a obra finalmente começou, ele acompanhou de perto todos os passos da construção da barragem.

“O companheiro Givanildo Pereira, que era Secretário do Orçamento Democrático, sabe o quanto eu aperreava ele. Givanildo tinha uma sensibilidade muito grande, quando eu via alguma coisa errada mandava para ele e ele passava para João Azevedo na época, que era secretário [de Recurso Hídricos]”.

Ivan foi vigilante. Ele fiscalizava, tirava fotos do que considerava errado e enviava aos representantes do governo à época, normalmente o então secretário João Azevedo, com quem tinha contato pelo Whatsapp. Assim procedeu durante longo de toda a execução da obra.

“Desde o início, a gente já tinha alguns problemas. Quando foram colocar os canos da comporta, colocaram lá embaixo, em cima do barro. Eu achei que aquilo não ia dar certo, tirei algumas fotos, mandei pra lá [para João Azevedo]. A obra passou alguns dias embargada. Arrumei uma confusão muito grande com o dono da empresa, que queria a gente por lá e até mandou cercar pra que nós não pudéssemos entrar lá.”

Os problemas apareceram logo no primeiro ano depois da inauguração quando a barragem enfrentou seu primeiro teste e sangrou.

“No primeiro ano em que a barragem sangrou, já houve muitas erosões no sangradouro. Fizemos filmagens, fotos e mandamos. Mandei através do Orçamento Democrático e mandei diretamente para Deusdeth [Queiroga], o secretário que substituiu João Azevedo. A resposta foi rápida. Isso foi no dia 10 de agosto. Quando foi dia 15 de agosto veio uma equipe, não lembro bem, mas eram 7 ou 8 engenheiros, inclusive, engenheiros e o proprietário da empresa que construiu, também. Quando nós descemos lá, eu mostrando a eles, a todos os engenheiros, e ele falando que não, que não era motivo de preocupação porque a água ia fazer seu caminho. E eu sempre alertando que: a água ia fazer seu caminho, mas que ia procurar lugar onde não tivesse pedra. O próprio engenheiro que foi quem projetou a obra, doutor João Feitosa, disse que achava uma falha grande no sentido de que o muro de contenção, que tem só uma parte lá, teria que ter sido feito até muito embaixo.”

Mesmo com as evidências de problemas no sangradouro da barragem, Ivan Pereira de Sousa diz que, depois da visita, o governo do estado não tomou nenhuma providência para reparar o erro de construção, que pode levar a barragem Pedra Lisa a ter o mesmo fim de Camará. No caso, obrigar a construtora responsável pela obra a refazer o sangradouro da barragem antes que o período de chuvas começasse.

Em outubro do ano passado, Ivan Pereira e Edmilson Soares gravaram o vídeo abaixo em que denunciaram a omissão do governo João Azevedo e, ao mesmo tempo, a falta de cuidado com a vida das populações que vivem nas proximidades da barragem, bem como com o dinheiro público.

Uma aposta evidentemente errada e irresponsável, porque o “inverno” chegou, uma torrente de chuvas se derramou pelo sertão paraibano e a barragem Pedra Lisa novamente encheu.

“Mesmo desse jeito, eles levando todas as informações, mandei todos os vídeos e fotos, a partir daí, de agosto pra cá, não deram nenhuma resposta. A gente ligava, mandava mensagem, mas ninguém respondia nada.”

Ivan informa, por fim, que, há poucos dias, algumas providências de urgência foram tomadas para evitar que o desastre anunciado se realizasse, como ações para diminuir a pressão sobre a parede da barragem, mas ele teme, rezando para que não aconteçam, que chuvas mais fortes voltem e destruam a barragem.

A denúncia de Ivan Pereira de Sousa é grave o suficiente para não ser investigada pelo Ministério Público. Sobretudo, os motivos para evidente ato de omissão, que podem ser politicos – repetir a atitude de Cássio e produzir uma nova Camará para tentar responsabilizar Ricardo Coutinho? -, ou envolve interesses econômicos?

João Azevedo era o Secretário responsável por obras como a Barragem Pedra Lisa. Nunca devemos esquecer desse detalhe.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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