A imprensa e seu herói

Leitor não identificado, o que é uma pena em razão da escrita de qualidade, encaminhou ao blog o texto irrepreensível que segue abaixo. O indefectível ex-juiz e, até bem pouco tempo, horói da Lava Jato, o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro.

A OMBUDSMAN da Folha de São Paulo escreveu neste domingo (04) excelente artigo com o título “A imprensa e seu ídolo”.

Faz uma leitura bastante imparcial do comportamento da imprensa na sua relação com seu antigo herói, o Sr. Sérgio Moro.

Observa que na abordagem sobre o embate entre Moro e o presidente da República, no caso em que o ex-juiz lavatista acusa o “capitão” de querer interferir politicamente nas investigações da Policia Federal, a imprensa já tomou partido.

Em todas as matérias publicadas, segundo a ouvidora, o que não foi visto (ou lido) indica que, mais uma vez, a imprensa corre o risco de que a sua antiga reverência ao personagem lhe poupe de questionamentos.

Alerta que o agora ex-ministro bolsonarista não pode voltar ao pedestal que ocupava antes dos vazamentos das mensagens obtidas pelo The Intercept, que puseram em dúvida a sua imparcialidade como juiz e indicaram que seus métodos continham problemas.

E continua. Moro nunca foi muito afeito ao contraditório — no curso da Lava Jato, chegou a escrever para a Folha lamentando o espaço dado a um artigo de opinião com críticas à sua performance na operação. Mas a imprensa tem (ou deveria ter) o contraditório como um pilar.

Fora a bajulação explícita, houve reportagem dizendo que Moro nunca repassou as ordens recebidas de Bolsonaro para interferir na PF — o que, num texto noticioso, deveria ser atribuído a uma fala do próprio ex-ministro, e não aparecer como uma afirmação inconteste.

Algumas entrevistas revelaram muito pouco, como a concedida pelo próprio Moro à Revista Veja.

Sem ser perturbado com perguntas incômodas, Moro disse, segundo a revista, que foi descobrindo aos poucos que embarcara numa fria e que acha “engraçado” pessoas insistirem em dizer que poderia ter algo errado no pedido de pensão que fez a Bolsonaro caso algo lhe acontecesse.

Uma das muitas perguntas não feitas: por que seria engraçado, é lícito fazer tal pedido?

Que Bolsonaro tem de responder por seus crimes, isso praticamente é assunto uníssono. Todavia, é preciso investigar com isenção também o ex-ministro pelos supostos crimes cometidos.

A Folha tentou escapar da mesmice. No domingo (26), uma boa análise perguntava por que Moro silenciou por tanto tempo diante dos abusos do chefe, além de trazer outras questões relevantes.

Segundo O Globo, em matéria deste domingo (04), o ex-ministro confirmou acusações ao presidente em mais de 8 horas de depoimentos a agentes da PF e a procuradores da PGR e que investigadores copiaram dados do celular de Moro e acessaram novas conversas de Bolsonaro.

Como assim? Quer dizer então que o ministro Moro, desde o início do seu mandato no Ministério da Justiça gravava todas as conversas com o presidente, sem que este soubesse?

O que esperar de uma autoridade que tem um comportamento ético desta estirpe? Vc votaria para a presidência da República em alguém com este tipo de comportamento? Se gravou, sem autorização, o próprio presidente da República, é fato ainda mais comprobatório, corroborado pelo vazamentos das mensagens divulgadas pelo The Intercept Brasil, que o Sr. Sérgio Moro é o típico Gersoniano, “aquele que gosta de levar vantagem em tudo”, que para se dar bem é capaz de vender a própria mãe.

Esta é a verdadeira personalidade do ex – magistrado. Como bem escreveu Rogério Cerqueira, “a corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT”.

É preciso, portanto, adicionar um outro componente à constituição da personalidade de Moro, o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”, o justiceiro messiânico. Mas cuidado Moro, no espelho dos exemplos da idade média, o destino dos moralistas fanáticos foi a FOGUEIRA.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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