O truculento “doutor” Roberto Cavalcante

Como deve ser tratado alguém que diz, em um programa de rádio, que todo jornalista ou radialista que divulga os números de mortes por Covid-19 deveria ser “apedrejado”? E se essa pessoa for o dono de um dos maiores sistemas de comunicação da Paraíba?

Pois foi o que disse hoje no programa de uma das suas rádios, o dono do Sistema Correio, Roberto Cavalcanti. E disse isso ao lado de dois radialistas que, claro, não o contestaram – seria esperar demais de Nilvan Ferreira e Victor Paiva – Victor Paiva certa vez me enviou uma mensagem para reclamar porque eu o tratei por “radialista”, quando na realidade o mesmo é “jornalista diplomado”. Coisas da nossa província.

Inconscientemente, Cavalcante sugeriu o apedrejamento de jornalistas como se fossem adúlteras bíblicas e merecessem o castigo que a tradição indicava, mas que Jesus impediu que acontecesse, numa dos episódios mais expressivos do quanto Ele desprezava a hipocrisia.

Com palavra, o “doutor” Roberto Cavalcante:

“Tem determinadas emissoras que dá [sic] o placar de quantos morreram no país naquele dia, dá que parece um gol da seleção do Brasil. Isso é uma vergonha. Um jornalista ou radialista que fizesse um negócio desses deveria ser apedrejado na rua”, disse inacreditávelmente o empresário que construiu seu império vendendo informação.

O dono do Sistema Correio deve ser daquela escola de empresários da comunicação segundo a qual uma empresa de comunicação é mais importante pelo que deixa de noticiar do que pelo que realmente noticia. Foi assim que, por exemplo, Roberto Marinho construiu seu império durante a ditadura. Roberto Cavalcante também?

Cavalcante revela com esse discurso truculento que tem saudades do tempo em que era possível algumas poucas famílias controlar a informação, eleger e derrubar governos, ser paparicado por políticos que lhes estendiam tapetes vermelhos em almoços e jantares na Granja Santana – João Azevedo voltou a fazer isso?

Enfim, caso dependesse de Roberto Cavalcante jamais saberíamos ao certo a quantidade de mortos por Covid-19 no Brasil, cujos anúncios diários vão dando forma a uma tragédia humanitária.

A quem interessa esconder as mortes por Covid-19?

Esconder os números dessa tragédia tem uma dupla intenção: primeiro, diminuir a pressão política sobre governadores e prefeitos, que caminham para fechar ainda mais as cidades, decretando lockdown. O objetivo é dificultar os contatos individuais, razão maior para o contágio, que está acontecendo em larga escala e levando ao colapso do sistema de saúde. Ou seja, o lockdown infelizmente causará ainda mais prejuízos à economia, mas é bom que lembremos aqui que poderíamos estar começando a debater a reabertura da econimia caso tivéssemos levado mais a sério o isolamento social.

A segunda intenção de Roberto Cavalcante com sua declaração é política: visa diminuir as responsabilidades do atual Presidente da República, Jair Bolsonaro, que, mesmo com o Brasil às portas de anunciar a morte de mil brasileiros/as por dia, continua sua cruzada insana contra o isolamento social, jogando irresponsavelmente para a galera como se não tivesse responsabilidade com a vida dos milhares de brasileiros que já morreram e que ainda morrerão do longo dessa crise.

Não esqueçamos que Roberto Cavalcante foi um dos tantos empresários que apoiaram a ascensão à Presidência da República de Jair Bolsonaro, que revelou a inteireza do seu horror de suas ideias proto-nazistas durante a atual pandemia de coronavírus. Cavalcante continua a apoiar o atual presedente e a administração que até agora só aprontou maldades com os mais pobres, para o delirio de empresários como o dono do Sistema Correio.

Não me surpreendi, portanto.

Como já fizeram tantos outros empresários nos últimos meses, Roberto Cavalcante confirma com essa declaração a mentalidade escravocrata de parte de uma elite econômica que sempre desprezou os mais pobres. A exibe a truculência de alguém que sonha com a volta da ditadura, cuja função não seria outra senão calar a resistência dos que ainda têm voz para denunciar desumanidades como essa.

Do ParlamentoPB

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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