Amanda Rodrigues trata da situação dos empresários e da falta de apoio dos governos durante a pandemia

EMPRESÁRIOS X FALTA DE APOIO DURANTE A PANDEMIA

Por Amanda Rodrigues

Todo mundo que tem uma empresa sabe que ser empresário no Brasil é uma aventura.

Antes de atuar como administradora pública, eu imaginava que não poderia existir nada mais desafiador do que ser empresária. Até que assumi a Secretaria de Finanças do estado da Paraíba e me vi diante de um desafio e de uma responsabilidade maior.

Somos um estado pobre, temos poucas indústrias e uma grande dependência financeira do poder público. Nessa função, exerci e aprimorei todas as habilidades que adquiri nas empresas privadas por onde passei, e pude crescer muito. Quando deixei o governo do estado, estava transformada pela experiência na administração pública, e passei a compreender não só como as coisas acontecem, mas como fazê-las acontecer.

Essa junção do público com o privado me tornou uma pessoa melhor, e hoje me sinto mais preparada para viver na dificuldade. Quero falar hoje sobre as dificuldades que acredito serem comuns para todos os pequenos empresários como eu, durante essa pandemia.


Eu tenho uma loja de iluminação. Os micros e pequenos empreendedores são a base da pirâmide dos “negócios”, e empregam milhares de pessoas país afora, o que recebemos de apoio do governo federal para atravessar essa crise foram a possibilidade de postergar o pagamento do simples, e o FGTS dos meses de abril e maio, pegar empréstimos com juros, e carência insuficientes para o tempo da pandemia, ou a opção que já tínhamos direito, de suspender os contratos de trabalho por dois meses.

O governo estadual, acompanhou a decisão do comitê gestor do Simples Nacional de postergação do pagamento. Para a categoria que mais emprega no Brasil não foi feito nada de concreto para resolver o do pagamento dos salários dos nossos funcionários, fornecedores e impostos. Sem contar com a sobrevivência da nossa família. A saída oferecida pelo governo foi de nos endividarmos ainda mais, contraindo empréstimos em cima de empréstimos.

Como nos ensina o ditado popular, a maioria dos empresários vendem o almoço para pagar o jantar. Poucos têm capital de giro suficiente capaz de sustentar essa situação, mas os governos, preferiram ignorar.
Ofereceram um auxílio emergencial que não é suficiente para os menos favorecidos. Os grandes empresários, que são cerca de 5% do país, já têm seus subsídios e apenas irão diminuir um pouco a sua concentração de riqueza. Os bancos receberam mais de um R$ 1 trilhão de reais, sem precisar ficar em filas.

Enquanto isso, todos os pequenos e médios empresários estão sendo impedidos de trabalhar por conta do isolamento. Isolamento esse que sou a favor. Tenho certeza que os governantes acham que nós também temos a capacidade de imprimir dinheiro. Ao invés de gastar energia mandado as pessoas irem para rua fazer carreatas, o governo federal deveria assumir nossa folha de pagamento por no mínimo 6 meses. O governo estadual, que tem a responsabilidade de ser o grande condutor local desse processo, infelizmente demonstra não ter capacidade, e a falta de liderança vem comprometendo todas as políticas públicas que influenciariam na saída mais rápida da pandemia e ainda causa uma completa desorganização na sociedade.

Quando falamos do governo municipal, que deveria mostrar capacidade de propor alguma coisa, além de isolamento para os empreendedores, uma vez que João Pessoa tem um Orçamento que ultrapassa 2,8 bilhões, e ainda sabendo que o município não precisa arcar com segurança, a outros poderes e a UEPB. Além de poucos novos leitos de hospitais, não temos conhecimento de mais nada. Para você ter uma ideia, a prefeitura recebe 3 vezes mais do SUS que a rede estadual, isso para financiar uma rede municipal de saúde que é, claro, muito menor que a rede de saúde estadual.

Desamparados, os micro e pequenos empresários ficam assistindo a uma espécie de competição entre os governos que não se entendem. Se Estado e municípios paraibanos tivessem adotado medidas preventivas únicas na atenção básica de saúde, severas de isolamentos, e até tivessem implantado o fechamento de barreiras sanitárias, certamente a Paraíba estaria em outra situação. Após 4 meses do alerta oficial da pandemia que foi feito dia 03/02/2020 pelo ministério da saúde, o poder público, que teve tempo de sobra para se prepara, organizar e articular ações, dividir funções. Não fez! Deveriam ter criado uma política única para todo o Estado, com o apoio irrestrito da justiça e do ministério público, para que as decisões fossem igualmente respeitadas. Preferem disputar cada medida politicamente.

Não é o momento para disputas políticas, e sim de um esforço coletivo que salve o maior número de vidas e restabeleça minimamente a economia. É triste assistir o caminho que tomamos. Percebo de olhos marejados um futuro incerto.
Do jeito que as coisas andam, esse pesadelo está longe de acabar, é nós empresários estamos expostos sem um único caminho que nos leve a alguma solução.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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