MANOEL DUARTE: BASTA!!!

MAIO DE 1983. No Brasil, milhares de pessoas começam a ir às ruas iniciando o movimento que ficaria conhecido como “Diretas Já”. De cunho político popular teve como objetivo a retomada das eleições diretas ao cargo de presidente da República.

FINAL DE MAIO DE 2020. O negro, George Floyde, é assassinado, de forma fria e cruel, na cidade de Minneapolis, por um policial branco e a partir desse crime pipocam pelas principais cidades dos Estados Unidos – Nova Iorque, Los Angeles, San Francisco, Filadhelfia, Boston, Washington (às portas da Casa Branca) e Minneapolis – um forte movimento contra o racismo naquele país.

INÍCIO DE JUNHO DE 2020 – A principal avenida de São Paulo, centro financeiro do país, a avenida Paulista, é tomada por inúmeros manifestantes em prol de um ato público pela defesa da DEMOCRACIA no país. O movimento é formado, em sua grande maioria, por jovens, estudantes, pessoas ligadas a movimentos sociais e a torcidas organizadas.

O que esse três movimentos tem em comum?

O movimento das Diretas Já começou em maio de 1983 e foi até 1984, tendo mobilizado milhões de pessoas em comícios e passeatas.

O movimento agregou diversos setores da sociedade brasileira, a exemplo de inúmeros partidos políticos de oposição ao regime ditatorial, lideranças sindicais, civis, artísticas, estudantis e eclesiásticas. Apesar da rejeição da emenda Dante de Oliveira o movimento pelas “Diretas Já” teve grande importância na história do país com a volta do poder civil em 1985, aprovação de uma nova Carta Constitucional e a realização das eleições diretas para Presidente da República em 1989.

A última semana de maio de 2020 foi marcada por protestos nas ruas dos Estados Unidos, um dos países mais segregacionistas do mundo. Na imprensa e nas redes sociais, as imagens de lugares vazios, uma constante em período de distanciamento social, deram lugar a fotos de aglomerações. Manifestantes foram para as ruas pedir justiça pela morte de George Floyd, um segurança de 46 anos, negro, morto, de forma covarde, por um policial na cidade de Minneapolis, no estado do Minnesota.

Diante das convulsões sociais que se somaram à crise econômica provocada pelo coronavírus, que colocou o país no epicentro da crise sanitária, Trump resolveu apostar no discurso da ordem, aprofundando a polarização e reforçando mais uma vez o tema que sempre figurou como pano de fundo de sua política eleitoral, o racismo. Trump, no Twitter, fez um comentário, no mínimo, infeliz: “quando os saques começam, os disparos começam”. Em resposta, pela primeira vez na história americana, a rede social sinalizou a postagem como violenta. Trump acabou recuando.

E o fato é que isso tudo já começa a refletir nas eleições presidenciais dos EUA. Joe Biden, do Partido Democratas, está à frente de Donald Trump, do partido Republicano, com a preferência dos eleitores registrados nacionalmente. O presidente republicano tem 43%, enquanto o candidato dos Democratas tem 53%, conforme pesquisa do Washington Post e da ABC News.

Início da tarde do primeiro domingo de junho. Integrantes de diferentes torcidas organizadas dos quatro grandes clubes de São Paulo (Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo) organizam atos pró-democracia na avenida Paulista.

As manifestações, que começaram pacíficas, acabaram em confronto com a Polícia Militar (PM) e apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

A via tem sido ponto de encontro de bolsonaristas aos domingos , o que os fizeram se achar como donos da avenida, centro financeiro do país. Defendem, sobretudo, o fim das medidas de distanciamento social durante a pandemia de Covid-19 e têm bandeiras antidemocráticas contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Congresso, inclusive com faixas defendendo a intervenção militar.

O protesto dos torcedores transcorria dentro da normalidade, e no final, quando o movimento das torcidas organizadas começava a deixar o local, portadores de bandeiras neonazistas investiram contra os manifestantes pró-democracia, provocando o início do tumulto, conforme confirmou o cel da PM, Camilo Batista, em entrevista à CNN Brasil. A reportagem revelou que as imagens disponíveis até o momento, não possibilitaram identificar confronto entre a polícia e o grupo bolsonarista, o que nos faz temer que a PM tenha se comportado de forma a permitir a provocação ao movimento dos torcedores.

Em paralelo ao ato, um abaixo-assinado sob o título “SOMOS MUITOS”, com centenas de nomes de atores, atrizes, cantores, cantoras, pintores, políticos, empresários, jornalistas, advogados de ideologias diferentes, que vão da direita democrática à esquerda, de Lobão a Caetano Veloso, de Fernando Henrique a Lula, de Haddad a Luciano Hulk, todos integrantes do “Movimento Estamos Juntos”, foi publicado convocando a população a defender a “DEMOCRACIA”.

Portanto, o que os três fatos mencionados tem em comum é que a população dos Estados Unidos – cujo presidente é a base de inspiração do nosso presidente – acordou para a negação de uma política nefasta que sucumbe hispanos, asiáticos, pobres e negros. E no Brasil também.

Aqui, Bolsonaro patina na faixa dos 30% de aprovação, conforme revelado pela última pesquisa DATAFOLHA. O desemprego poderá alcançar 20 milhões de pessoas e o PIB (Produto Interno Bruto), conforme previsões otimistas de analistas econômicos, terá um encolhimento de 6% em 2020, isso tudo em meio ao triste cenário de quase trinta mil mortes em decorrência do coronavírus, até agora. Enquanto isso, o presidente parece resignado a aceitar esse cenário desolador aumentando cada vez mais o distanciamento do que pensa a maioria do povo, a favor do isolamento social. E isso é um sinal de alerta, é como se ele não se preocupasse com a queda da popularidade por ter um “ás na manga, um coelho na cartola, um trunfo”. Seria os MILITARES?

Mas ao que parece a sociedade brasileira está acordando. E as instituições também. A pesquisa mostra aumento da popularidade do Congresso e do STF. O povo tem feito panelaços e neste domingo foi às ruas bradando publicamente palavras de ordem contra o governo Bolsonaro. As torcidas organizadas, sempre referenciadas por muitos como “alienadas” foram às ruas de várias cidades, a exemplo de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo.

Todos começam a falar a mesma língua, salvo uma minoria de ideais fascistas. Quando cessa o diálogo, cessa a razão e irrompe a intolerância. Matilhas salivam contra honras e reputações. Mudam ao sabor do vento a direção de seus ataques. Estudantes, intelectuais, artistas, professores, políticos, autoridades eclesiásticas, o povo em geral, assim como em 1983, é chegada a hora. UNI-VOS. É chegada a hora, vamos todos “caminhando e cantando e seguindo canção, pois quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.

Vamos todos dar um basta a esta situação de intolerância em nosso país e de desrespeito à democracia.

BASTA!!!

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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