VIDAS IMPORTAM? A tempestade perfeita para o coronavírus já começou

Miguel Nicolelis é coordenador do Comitê Científico do Consórcio Nordeste, criado pelos governadores nordestinos para orientar ações de enfrentamento à pandemia de coronavírus.

Em entrevista hoje à Folha de São Paulo, Nicolelis disse que não é o momento nem de reabrir as atividades econômicas, muito menos de relaxar as medidas de isolamento social.

Para Nicolelis, o maior problema que o Brasil enfrenta hoje para chegar ao controle da pandemia é a inépcia do governo federal que resulta na inexistência de uma coordenação nacional que unifique as ações.

Ao invés de melhoria no quadro, segundo ele, o que temos é uma tempestade perfeita se formando e suas nuvens escuras se aproximam perigosamente.

Curva ascendente dos casos de Covid-19, que aumenta com rapidez a circulação do coronavírus, isolamento social abaixo dos 50%, ocupação de leitos de UTI beirando os 80%, e os meses de chuvas chegando no Nordeste, e, com as chuvas, os inevitáveis aumentos nos casos de influenza, H1N1, dengue e chikungunya, que vão pressionar ainda mais as redes públicas de saúde, sobretudo con crescimento da demanda de leitos de UTI.

“Essa tempestade perfeita (…) já começou. Estamos nela, mas não explodiu da maneira que ela provavelmente pode explodir”, disse ele.

Os alertas vêm de todos os lados, agora de um dos maiores cientistas do mundo. Portanto, nenhum/a governador/a ou prefeito/a poderá alegar desconhecimento das consequências que o afrouxamento do isolamento social poderá provocar.

Certamente, eles têm uma escolha pela frente: ou priorizam a proteção do seu povo ou a proteção dos negócios.

Eu nunca disse que desemprego provocado e as grandes perdas econômicas, com reflexos na arrecadação dos governos, deveriam ser desconsideradas. Com algumas poucas exceções, todos perdem durante uma pandemia. Mas, tenho repetido desde o começo que a única mais rápida maneira de superar essa situação seria uma radical política se isolamento social. É o que a experiência internacional tem mostrado. O Brasil se mostrou incapaz até de aproveitar essa vantagem, que foi a chegada tardia do coronavírus em nosso país, para se preparar melhor e sair mais rapidamente da crise. Chegamos em meados de junho com uma curva ascendente de contágio e mortes.

O grau de irracionalidade chegou a um nível tal que, ao invés de optarem pela pressão aos governos estaduais e municipais pelo retorno das atividades econômicas, essa parte do empresariado deveria ter se organizado para exigir financiamento a juros baixos – no caso do micro e pequenos, a fundo perdido – para conseguirem atravessar essa crise.

É certo que a fraqueza política, a inépcia administrativa, a incapacidade de planejar e a falta de liderança de governadores como João Azevedo contribuíram decisivamente para essa situação.

Talvez tenha chegado a hora da sociedade civil estabelecer diálogos, escutar quem pode ajudar nessa hora, e construir um consenso mínimo.

Chegou a hora de fazermos a escolha certa.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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