Família, família… Qual é mesmo o partido de Veneziano?

Ninguém pode negar que Veneziano Vital do Rego é um homem de família. A família deve ser tão importante para o senador paraibano que, se pudesse e tivesse tios e primos suficientes, teria parentes em todas as instâncias da República, da câmara de vereador ao Senado, da prefeitura de Campina Grande ao Palácio do Planalto, passando pelos Tribunais. Uma república da grande família.

Tradição familiar é o que não falta na linhagem de Veneziano. Começa lá dos anos 1930, com o ex-governador Argemiro de Figueiredo, de quem é sobrinho-neto, passa pelo também ex-governador e avô, Pedro Gondim, segue com o pai, Vital do Rego, e pela mãe, Nilda Gondim, ambos ex-deputados federais – D. Nilda é hoje suplente do Senador José Maranhão. Da geração atual, tem o irmão, Vitalzinho Vital do Rego, que deixou a política eleitoral por um cargo no Tribunal de Contas da União. Não bastasse esse mundaréu de parentes na política, Vené tentou e quase elegeu deputada federal a esposa, Ana Cláudia, que ficou na primeira-suplência. Mas, o ex-cabeludo promete não desistir. Ana Cláudia é candidatalissima à prefeitura da Campina Grande.

Meu partido é minha família

Se Veneziano Vital do Rego não é o único na Paraíba que deseja transformar a política num espaço para acomodar sua grande família,  talvez seja ele, entretanto, o único a assumir essa intenção sem disfarces e sem vergonha de ser o que é.

Como todo e qualquer político paraibano que pertence a uma oligarquia política, Veneziano tem que ter um partido para chamar de seu. Quando ele se filiou ao PSB fez isso unicamente para, a convite de Ricardo Coutinho, eleger-se senador, outro erro que o ex-governador cometeu em 2018. Mas, quando Veneziano entrou no PSB, não levou a esposa Ana Cláudia junto, ela que sempre acompanhou as incursões partidárias do marido – Ana Cláudia é Veneziano saíram junto juntos do PMDB, só que ela foi para o Podemos.

Quem acampanhou de perto essa inusitada “divisão” familiar foi o ex-deputado e membro de outra tradicional família campinense, Álvaro Gaudêncio Neto. Assim ele descreve em 2018 os termos da negociação de Veneziano com o Podemos para, mesmo no PSB, ser ele o dono do partido na Paraíba.

Comecemos pela situação do meu amigo deputado federal Veneziano Vital do Rego. Era filiado ao PMDB. Com a sua desfiliação deste partido, o PODEMOS passou a ser a opção. Mesmo decidindo filiar-se ao PSB do governador Ricardo Coutinho, o deputado Veneziano “combinou” com o PODEMOS de deixar neste partido a sua esposa Ana Cláudia, sob o argumento de que ela ficaria em seu lugar. E assim, com a promessa dela sair candidata à deputada federal, com amplas chances de vitória, Veneziano convenceu a direção nacional do partido de que a sigla vai ser contemplada na contabilidade dos recursos do fundo partidário, com a eleição de sua mulher.

O site A Palavra, de Campina Grande, foi mais duro na manchete da matéria em que noticiou a nota de Álvaro Neto: “Álvaro denuncia ‘negociata’ para eleger Ana Cláudia…”

Pois bem, essa semana Veneziano Vital do Rego deu um inusitada declaração em nome do Podemos ao site Paraíba Debate, mesmo sendo ele, acredite, não apenas filiado ao PSB, mas também líder do partido no Senado. Tratando sem nenhuma cerimônia das alianças do Podemos em João Pessoa e Campina Grande, o senador do PSB (?) chegou a usar o verbo no plural para explicar a posição do seu (?) partido nas duas cidades:

Não falo em nome do meu partido, pois sou do PSB. Mas posso dizer que tenho a liberdade de falar pelo Podemos. Nós no final de novembro estabelecemos uma parceria entre os partidos, ou seja, dividindo estratégias para que pudéssemos disputar nas chapas majoritárias. O Podemos não tem candidatura em João Pessoa vamos comungar com o PTB, como em Campina Grande recebemos esse apoio para Ana Cláudia”, disse.

Entendeu? Veneziano declara que não não fala em nome do partido ao qual é filiado, mas sem nenhum constrangimento, anuncia qual é posição de outro partido, dizendo-se porta-voz do mesmo. Certamente, não deve existir nenhuma ata do Podemos que registre essa autorização para que um filiado a outro partido fale em seu nome, mas é bastante provável que essa decisão tenha sido tomado em volta da mesa da sala-de-jantar na residência dos Vital do Rego.

O mais paradoxal na eleição de Veneziano para a cobiçada vaga de Senador, é que ele era um político em franca decadência quando foi convidado pelo então governador Ricardo Coutinho a se filiar ao PSB para se candidatar ao Senado. Veneziano ganhou fôlego e ressuscitou para a política.

A situação é ainda mais paradoxal porque Veneziano deve sua eleição ao apoio de um governador cuja trajetória é marcada pela crítica ao familismo na política, e nesse ponto a coerência de Ricardo Coutinho é exemplar: mesmo tendo amplas condições de eleger familiares para cargos públicos e criar sucessores políticos, como quase todos fazem, RC jamais fez isso.

Para aumentar ainda mais a dose de paradoxismo, enquanto Veneziano curte seus oito anos no paraíso na Terra que é o Senado, passa incólume pelas investigações da Operação Calvário, ele que foi candidato em 2018, ao contrário de Ricardo Coutinho.

Paradoxos da nossa política que só o familismo explica

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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