Márcia Lucena: “é o amor maior do mundo em meu coração que me impulsiona pra luta.”

Que bela a carta de despedida que Márcia Lucena escreveu para seu pai, Iveraldo Lucena! (leia no final)

Uma homenagem carregada de tristeza pela perda inelutável e também a mais reconfortante homenagem que um país poderia receber ainda em vida, um reconhecimento à coragem que provavelmente Iveraldo Lucena teve de reunir para anunciar aos filhos a maneira digna que escolheu para viver seus últimos dias.

Depois do câncer recém descoberto e prestes a completar 86 anos, escolher como morrer é a mais genuína expressão de amor pela vida.

O pai de Márcia Lucena certamente não concordou viver seus últimos dias sofrendo num quarto impessoal, frio e silencioso de um hospital qualquer, em um provavelmente inútil tratamento. Iveraldo Lucena escolheu morrer cheio de vida escutando pela última vez o canto dos pássaros, os derradeiros raios de sol entrando pela janela, as árvores frondosas que preenchem seu jardim, vendo os móveis do seu quarto, conversando, despendido-se de um vida que foi preenchida pela generosidade e pelo amor dos filhos, que a carta de Márcia Lucena é prova, e de Iracema, sua esposa e companheira de uma vida toda.

A carta de Márcia Lucena me emocionou bastante, como você pode notar. E por isso não poderia deixar de desejar-lhe forças. E a resposta que ela me enviou é um libelo à resistência e uma demonstração de que as perseguições de que é vítima as tem transformado numa outra mulher, e que sua disposição para enfrentar seus detratores e adversários políticos moldaram em sua em personalidade uma fortaleza intransponível.

Abaixo as palavras que Márcia Lucena que honrou.

Estou buscando… tenho me refeito tantas vezes nesses últimos tempos, morrendo e ressuscitando tantas vezes… já não sou mais a mesma pessoa… há muito deixei “Marcinha” pra trás, no mundo da ignorância, da ingenuidade. Vivo hoje no mundo da inocência, pois tenho uma essência inocente como de uma criança, mas minha criança tem coragem, tem força, tem o amor maior do mundo em meu coração que me impulsiona pra luta. Vou ferida, vou com medo, vou com saudades, mas vou.

Quando terminei de ler, percebi que a imagem da fortaleza para descrever a nova Márcia Lucena deve ser destacada as muralhas que passaram a rodeà-la por todos os lados, muralhas erguidas com a argamassa do sofrimento ao longo dos últimos anos, sobretudo dos últimos meses.

E lembrei de Berthold Brecht:

Há mulheres que lutam um dia e são bons, há outras que lutam um ano e são melhores, há as que lutam muitos anos e são muito boas. Mas há as que lutam toda a vida e essas são imprescindíveis.

Sem nada mais a acrescentar, a carta de despedida de Márcia Lucena.

Esse é meu pai o Professor Iveraldo Lucena. Isso foi um ato em frente ao presídio Julia Maranhão, no dia 22 de dezembro de 2019, onde “eu me encontrava presa, na cela de uma cadeia”, por algo que nunca fiz e que ainda não foi explicado. De lá de dentro ouvi sua voz que ecoou em mim aquele amor gigante! Muito maior do que o imenso amor de um pai por uma filha: o amor pela verdade, o amor por todos os conhecidos e desconhecidos que vivem ou poderão vir a viver injustiças, o amor pela vida de uma nação e seu processo democrático! A voz de um homem justo! Quem não tem forças para enfrentar as adversidades e as injustiças diante de um homem tão lúcido?

E quando esse homem é seu pai e lhe ensina, com seus atos e palavras, sobre o amor – não o amor egoísta, que prende e limita, aquele amor que faz o sujeito bater no peito e dizer “eu e os meus primeiro”, não, a língua dele sempre foi o amor por todos, pela verdade, pela vida.

Meu pai é um contador de estórias, um professor de história, um gestor público, um servidor público, um amante da vida, da natureza, dos sonhos, um andarilho convicto. Agora, de repente surge um câncer de pâncreas que representa desgosto profundo, associado às limitações no pulmão que representa tristeza profunda, problemas nos rins que traduzem o medo profundo e ao coração crescido que, no seu caso, certamente por acolher tanto amor profundo…

Ontem meu pai, diante do avanço de seu quadro clinico, conversou conosco, seus filhos, suas irmãs, seus netos para dizer da sua decisão: “Como não há o que fazer para que eu retome a liberdade mínima que eu estava tendo de levantar da cadeira e ir ao banheiro, por exemplo, decidi que não farei nenhum tipo de intervenção ou tratamento além do que já fizemos, vou dormir até que o corpo resolva essa questão”.

Ajustou com cada um de nós alguns detalhes, como um bom professor, nos deu segurança e tranquilidade. Resolveu sua herança em vida há anos atrás (o lugar onde moramos a vida toda no Conde, seu único patrimônio, dividiu no Incra em glebas e doou para cada filho), explicou que não teremos problemas, pois não tem dinheiro acumulado, mas não tem dívidas e falou da felicidade e do prazer que foi conviver conosco. Nega, minha mãe, o amor de sua vida, está com a consciência oscilando, mas não esquece seu Nego por um minuto, deverá ir vê-lo hoje, com ele já “dormindo”, pois ele não quer vê-la sofrer.

Assim, um homem que viveu a vida de forma linda, grande, amorosa, decide sobre a morte com a mesma inteireza, grandeza e lucidez. Se despediu, se recolheu e decidiu deixar a natureza, essa respeitável senhora, fazer a sua parte com reverência.

Achei, olhando para o meu pai ao longo da vida como uma filha perdidamente apaixonada, que não suportaria o dia que esse momento chegasse, que não saberia viver sem sua orientação, suas palavras, seu colo, seu olhar, seu amor. Mas a vida é um caminho de aprendizados e tivemos bons professores. A sua última lição tão amorosa, respeitosa e desapegada nos tira o direito de acessarmos o desespero, de congelarmos não dor. Nos impõe o respeito à vida acolhendo a sua morte. Meu pai está deixando alguns desejos inevitáveis de pai e companheiro para trás: preocupações com minha mãe, com meus irmãos, comigo… coisas sem fim para um pai presente e amoroso e um marido apaixonado.

Aqui com meus botões, tenho o desgosto de ver meu pai se despedir sem ver a injustiça contra mim reparada, mas sei que vai com a tranquilidade e a certeza da filha que tem… “Tudo é experiência de vida”, sempre falou. Nessa última conversa com ele dissemos: “painho, o senhor tem algo fundamental ainda, o senhor tem a lucidez!” E ele respondeu com muita dificuldade, pois sem forças para emitir os sons da fala – “conceitue lucidez”…

Só me resta te dizer: te amo tanto painho, muito obrigada por tudo e vai voando, leve para os braços do pai, que, certamente, está feliz em poder lhe dar um abraço. O tempo que seu corpo ficar aqui ficará cercado de beijos e carícias, mas não lhe prenderemos em lugar nenhum! Vice é um andarilho e tem uma bela caminhada a fazer.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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