Márcia, filha de Iveraldo Lucena.

Iveraldo Lucena foi meu professor no curso de História da UFPB. Lembro de como ele sentava à frente do birô e de como assim permanecia enquanto a aula de duas horas durasse. Essa foi a primeira imagem marcante do meu ex-professor.

Voltei a fixá-lo de novo na memória 30 anos depois, numa noite de dezembro do ano passado. Ele com um microfone na mão, vestido de branco, clamando por justiça em frente ao presídio para onde a filha, Márcia Lucena, havia sido levada como se fosse ela uma presa política. E era mesmo. Aliás, ainda é.

Iveraldo Lucena não tinha uma expressão envergonhanda nem sua voz traduzia qualquer tipo de constrangimento por ter de enfrentar aquela situação, aos 85 anos de idade. Quando começou a falar, suas palavras não protestaram apenas por Márcia Lucena, elas ressoavam um sentido mais amplo e mais generoso de equidade jurídica e liberdade, porque se aquilo acontecia com a filha, que era prefeita, poderia acontecer a qualquer um. Eis uma verdade universal quando as injustiças se institucionalizam.

A voz firme, o raciocínio equilibrado e organizado, trouxe de volta o professor de 30 anos atrás. Iveraldo Lucena conhecia a filha que o escutava atrás dos muros e que sairia dali no dia seguinte, energizada pela força das palavras encorajadoras do pai e pelo apoio das centenas de apoiadores que a receberam de braços abertos.

Essas duas passagens da minha vida me vieram à lembrança quando terminei de ler o texto que Márcia Lucena postou no final da noite de hoje no Facebook homenageando o pai morto.

Um pequeno, mas expressivo trecho, inspirou-me a escrever o que agora vos escrevo: “Era um homem do amor, tinha fé nas pessoas e na vida.”

Acreditar nas pessoas, acreditar na vida. Não é exatamente isso que nos faz mais falta, nesses tempos sombrios de desprezo pelo humano?

Abaixo, o registro de Márcia Lucena.

Tem coisas que deixam marcas muito profundas e por vezes, em vida, não há tempo de resolvê-las…

Iveraldo. Fortaleza, sabedoria, espírito livre, alma sintonizada com o amor. Este foi – é – o meu pai.

Meu pai, foi um homem que deu a vida ao serviço público. Entendia profundamente o sentido desse ofício. Tinha prazer em seu propósito como servidor, professor, gestor. Esteve em várias funções, ocupou vários cargos nos municípios de João Pessoa e Conde, no Estado da Paraíba e no Governo Federal. Serviu, com dedicação e respeito, ao seu estado, seu país. Uma linda e respeitada carreira!

Fazia tudo com muita inteireza, competência, criatividade e inovação. Sempre de maneira coletiva, agregando pessoas – pois adorava o novo, o movimento, as mudanças e as transformações que só o trabalho inclusivo, coletivo traz. Ele foi um agente ativo para a promoção do bem estar social em cada função que exerceu. Compreendia o valor disso tudo como ninguém.

Era um homem do amor, tinha fé nas pessoas e na vida. Digno, honesto, bom. Livre das coisas mesquinhas como maldades, julgamentos e preconceitos. Um agregador no trabalho e em casa. Nos criou com amor e verdade – suas maiores riquezas.

A vida pública do meu pai foi de dar orgulho e sei que sentia prazer em acompanhar minhas escolhas, meu propósito de vida tão próximo do seu: servir.

Em alguns aspectos, sem planejar, segui seus passos. Ele, professor. Eu, professora. Sei que ele tinha orgulho da minha escolha de trabalhar com o que é público, com o coletivo. E foi aí, nesse lugar de mulher pública que ele me viu ser profundamente ferida.

Por duas vezes, ele sentiu na pele o gosto amargo do autoritarismo e de algo que se quer ser regime de exceção de direitos.

Ele foi uma pessoa que lutou por direitos sociais e pela democracia a vida toda, foi advogado das ligas camponesas. Foi na Ditadura Militar que ele viu minha tia ser presa. Seu crime foi esconder cartilhas de alfabetização de adultos no quintal de sua casa. Como em um show de horrores, o Exército invadiu e queimou tudo. Anos depois, estava meu pai, junto com Darcy Ribeiro, construindo a Lei de Diretrizes de Bases da Educação Nacional (LDB). Privilégio? Não. Competência, luta e compromisso para que todos e todas tivessem acesso a uma educação básica e de qualidade.

Meu pai presenciou, na manhã do dia 17 de dezembro (2019)minha prisão, sem que eu tivesse cometido crimes. Que pai, aos 85 anos vendo uma cena destas, ficaria firme?

Meu pai ficou! Firme!

Eu disse na hora que entrava no veículo da Polícia Federal “vai ficar tudo bem, painho”, no que ele prontamente respondeu: “tenho certeza!”

Advogado, professor de História, homem sábio e confiante, sempre acreditou na Justiça e no lado bom das coisas. Ambos achávamos que ao ser constatado o equívoco, eu voltaria pra casa em algumas horas. Ingenuidade? Não, inocência.

Mas não foi isso que aconteceu, fiquei presa, como se fosse uma criminosa, sem nunca ter sido interrogada ou informada sobre nada que me levou àquela condição, a não ser na noite do primeiro dia, quando recebi algumas páginas com parágrafos confusos, sem nexo, dizendo coisas que jamais serão provadas, pois não aconteceram.

Depois de 5 dias no presídio, volto pra casa por força de uma liminar, mas antes disso, meu pai participou de uma manifestação de apoio em frente ao presídio, com postura e garra de militante, de defensor do estado democrático de Direito. Ele e muitas centenas de pessoas gritando “Márcia Livre!”.

Sei que ele nunca imaginou que viveria uma cena dessas… Que orgulho danado desse pai, desse homem, capaz de numa hora daquelas generalizar o amor, pois não pediu isoladamente por mim, mas pela Justiça, pela democracia.

Volto pra casa, volto ao trabalho de cabeça erguida, esperando a cada momento um reconhecimento e a retratação por parte dos que me acusaram e me prenderam. Mas o que vimos foi no domingo de carnaval, a tarde, o oficial de justiça trazer uma determinação judicial com uma série de cautelares, sem ter ocorrido nada de novo. Dentre as cautelares, o uso de tornozeleira e a obrigação de todos os dias estar em casa após as 20h, assim como nos finais de semanas e feriados e não poder sair do Conde.

Meu pai adoeceu profundamente – não por isso, já vinha doente, imagino apenas que esses fatos se somaram a outros, agravando a situação.

Enquanto padecia, sua lucidez era cada vez mais presente. Meu pai morreu pensando, aprofundando ideias, fazendo escolhas de forma digna e firme. O desejo e a certeza de haver justiça, de haver reparação no meu caso, nunca esmoreceu dentro dele. “Há homens e mulheres de bem e a reparação será feita, é só uma questão de tempo”, dizia. Pode ser, estou esperando, confiante na certeza de meu pai!

Mas, a indignação de ver meu pai partir sem nada disso ter mudado, tomou forma, ficou grande!
Constatar que meu pai morreu sem me ver livre como eu deveria ser é triste!
A liberdade é um valor essencial para todo e qualquer indivíduo.

Meu pai morreu vendo a minha agonia com advogados em busca do direito de acompanhá-lo ao hospital. Precisava e gostaria de ter partilhado mais com ele esses tempos difíceis em que o corpo padecia. A cabeça permanecia pronta para orientar, esclarecer, iluminar e esbanjar sabedoria, e eu não usufruí disso como queria, como sempre aconteceu desde meu primeiro momento de consciência nesta vida! Ele cuidou de mim a vida toda. Não pude cuidar dele como meus irmãos fizeram em sua reta final.

Meu pai morreu sem me ver livre da tornozeleira, um amuleto às avessas, equipamento que torna evidente a injustiça que me está sendo imposta, pois nada fiz para merecê-la.
Tenho lidado com tudo isso com resiliência, paciência e fé, características herdadas do meu pai, mas a indignação chegou e é feroz.

Como viver tudo isso sem ter culpa, sem ter sido condenada ou mesmo ré em um processo? E como impor isso às pessoas que você ama?

Meu pai foi nessa viagem sem peso, sem dívidas, sem inimigos, morreu com a dignidade que viveu, mas sei que foi com a dor de ver essa situação injusta sem perspectivas de solução.
Há 5 meses estou com essa tornozeleira. Faz sentido? O que fiz pra isso? Que perigo eu ofereço a sociedade? Quando isso vai acabar?

Meu pai não terá nenhuma dessas respostas.
A quem isso importa?

De fato, tem coisas que deixam marcas muito profundas e por vezes, em vida, não há tempo de resolvê-las.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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