Gaeco “erra” por dois anos em data da renúncia de vice-prefeito do Conde para justificar crime que nunca ocorreu

Segundo o Gaeco, a prefeita Marcia Lucena desejava implantar no Conde o que os promotores chamam de “modelo de gestão pactuada na gestão (sic) da saúde do Conde-PB”:  o então vice-prefeito Temístocles Filho – a pressa é mesmo inimiga da perfeição.

Mantendo a linha de não apresentar provas para suas convicções, o Gaeco diz que foi a objeção do vice-prefeito que “forçou” Márcia Lucena a suspender a transferência da administração da saúde do Conde para a Cruz Vermelha, fato que a obrigou a “solicitar que Daniel Gomes da Silva aguardasse o resultado da eleição para governo do Estado”.

O problema aqui não é apenas a inexistência de um crime. Além dele não existir, existe uma contradição temporal intransponível nessa ilação do Gaeco, cujos promotores não se deram ao trabalho de sequer fazerem uma consulta ao Google para conferir as informações. Ou, se foram, passaram a adotar definitivamente a lógica segundo a qual, se os fatos não lhes dão razão, às favas com os fatos!

A inconveniência dos fatos

Não é porque os fatos não são relevantes para o Gaeco que devamos desconsiderá-los. Segundo os promotores, foram as discordâncias do vice-prefeito Temístocles Filho com a implantação de uma OS na saúde do Conde que o levaram à renúncia em 27 de setembro de 2017.

Veja:

O problema é que a tal renúncia aconteceu em 2019 e não em 2017, como afirma o Gaeco. Ou seja, uma diferença de 730 dias entre uma data e outra, o que, por si só, seria suficiente para não levarmos a sério o trabalho do Gaeco. O pior é que não é só isso. Quando a renúncia de Temístocles Filho aconteceu, a carta de renúncia divulgada por ele não mencionou em momento algum qualquer divergência sobre a gestão da saúde do Conde. (Leia aqui)

Ou seja, nada, absolutamente nada, sustenta as “convicções” do Gaeco, sobretudo para justificar uma denúncia contra uma prefeita que é candidata à reeleição, isso em ano de eleição. Essa é, na realidade, a motivação principal? Gerar manchete sem que haja a preocupação com a demonstração da verdade?

A situação que estamos nos metendo é tão esdrúxula que eu temo que estejamos abandonando o campo de debate jurídico para adentrarmos no âmbito da psiquiatria, porque, convenhamos, é um tanto esquizofrênico que um órgão do Estado possa acusar uma cidadã por um crime que nunca aconteceu, e baseado num fato que só aconteceu dois anos depois da data por ele apontada.

Enfim, como a denúncia do Gaeco não se assenta em fato determinado, já que a Cruz Vermelha jamais administrou a saúde do Conde, era preciso encontrar uma não prova que justificasse porque um crime que não ocorreu deveria, pela expectativa do Gaeco, ter ocorrido e não ocorreu.

Ou seja, como Márcia Lucena só assumiu a prefeitura em janeiro de 2017, e até hoje nenhuma OS assumiu a administração de nenhum setor da Prefeitura, urgia encontrar uma explicação para um fato que teimava em negar as convicções dos promotores do Gaeco.

A explicação que restou foi a inverossímil oposição, que nunca foi demonstrada, do ex-vice-prefeito, o hoje bolsonarista e médico Temístocles Filho – ah, Temístocles renunciou ao cargo porque teve que optar, por determinação do TCE, entre o cargo de vice-prefeito e os empregos que acumulava como médico, e não por conta de uma “suposta” oposição às OSs.

Enfim, esse processo da Calvário cheira mal cada vez mais, um cheiro de politização do Ministério Público, que mistura explícita perseguição política contra um partido e uma liderança política.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

2 comentários em “Gaeco “erra” por dois anos em data da renúncia de vice-prefeito do Conde para justificar crime que nunca ocorreu

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