POR QUE RICARDO COUTINHO DEVE SER CANDIDATO? – Parte I

Por Manoel Duarte

INICIO este texto com uma provocação: Por que Ricardo Coutinho deve ser candidato a prefeito de João Pessoa?

Numa visão rasa não se justifica, pois foi vereador, deputado, prefeito e governador por duas oportunidades, e só não foi senador por opção em ir para o sacrifício pessoal. Caso ao menos por um instante lhe aclarasse o futuro como o revelado posteriormente, sob o sórdido beijo traiçoeiro do Judas paraibano, digno de uma tela de Caravaggio, sua escolha haveria de ter sido outra; afinal a política adora uma traição, mas é implacável com os traidores.

RC errou feio na escolha do sucessor, deveria ter mirado nos exemplos de Ciro com o Camilo Santana, no Ceará, e do Jackson Wagner, na Bahia, com o Rui Costa. Em razão da péssima opção paga um preço altíssimo, pois salvo de alguns poucos, sequer uma demonstração de gratidão recebeu, atitude diferente adotada por secretários e ex – secretários que assinaram uma carta de apoio ao ex – governador Geraldo Alckmin em São Paulo quando foi denunciado pela Lava Jato.

Mas por que deve voltar?
A traição, um dos mais abjetos dos comportamentos humanitários, seria, por si, justificativa convincente para o retorno. Mas existem outras razões.

Há algo inquietante no cenário político paraibano. Não se discute mais as razões da Operação Calvário ter como objetivo a aniquilação política do legado de Ricardo Coutinho. Isso é tão descarado e evidente que até os ferrenhos críticos ao estilo de RC reconhecem os exageros dos promotores da Calvário, soldados da Cruz de Santo André. Para os que desconhecem a história essa era um símbolo, sinal característico dos arrependidos, que os inquisidores da idade média colocavam em suas vítimas, após longas sessões de expiação física em que os flagelados, sob tortura às mais diversas, acabavam por não suportar os tormentos e confessavam todos os crimes que lhe eram atribuídos.

Em tempos atuais, a Cruz de Santo André, nas palavras de FERRAJOLI, exterioriza-se “no método absurdo e feroz derivado da união entre o misterioso e arbitrário segredo que acompanha os primeiros passos do processo penal e o estado de violência e de tormento da prisão preventiva quando o cidadão ignora o que se trama contra ele e, se for inocente, não pode nem mesmo suspeitar da tempestade que se prepara sobre sua cabeça”.

Todavia, o que inquieta no cenário político é, aonde os guardiões da moralidade querem chegar? Logo, existem quatro análises factuais sobre as suas supostas intenções; a princípio, uma não excluindo a outra.

Vamos às elucubrações:

(i) – O reagrupamento das correntes ideológicas dentro da estrutura do MP paraibano teria beneficiado um ex-senador e ex-governador, cassado, o primeiro e único da história política paraibana. Faz algum sentido. Hoje o atual 2º sub procurador nomeado no segundo mandato do atual Procurador Geral de Justiça, reconduzido pelo atual governador João Azevedo, o terceiro na linha hierárquica da Instituição é um conhecido simpatizante do Cassisismo. Fica claro que neste segundo mandato do atual grupo dominante houve opção por aproximação com uma ala que, após perder o poder no órgão, sempre foi rejeitado, dada suas, digamos, “preferências” cassistas. Quem não se recorda da preterição do primeiro colocado na eleição do MP paraibano em 2005, hoje desembargador Frederico Coutinho, optando o governador Cássio, à época, pela escolha da segunda colocada, a Procuradora de Justiça, Janete Ismael Macedo?

(ii) – A segunda hipótese fática avalia que existe uma “simpatia” para com o grupo político dos “Cartaxos” por segmentos do MP paraibano, tanto que nenhuma investigação foi deflagrada das denúncias escabrosas dos áudios vazados de secretários e do próprio prefeito combinando recebimento de propinas com empresários.

(iii) – A terceira probabilidade fática é que o senador atual, José Targino Maranhão, com a LONGA MANUS que possui nas entranhas de segmentos do Judiciário paraibano o mantém com sobrevida na política com sua armadura preservada.

O que essas lideranças políticas teriam em comum? Uma criança de 5 anos tem capacidade de responder a essa pergunta: o que os unem é o desejo e o propósito deliberado em aniquilar Ricardo Coutinho da vida pública. Alguém tem dúvidas disso?

O primeiro foi governador por duas oportunidades e o principal registro no seu currículo é o fato de ter sido o único governador cassado por corrupção na história política da PB.

O segundo, prefeito de João Pessoa, teve a oportunidade de ser candidato ao governo em 2018 mas não teve coragem, simplesmente porque sabia da aprovação popular de RC e da sua potencialidade em eleger quem apoiasse. Com Ricardo fora da vida pública, seus sonhos de uma candidatura em 2022 seriam regozijados.

O terceiro foi governador, por três vezes, mas a história e a memória dos paraibanos não se referem ao mesmo como: “O grande governador”. Sabe o motivo?

A razão é simples, essa “marca” tem dono, esse título é de Ricardo Coutinho. O trabalho desenvolvido nas suas duas gestões como governador o qualifica em todas as pesquisas qualitativas e quantitativas como “o melhor governador da PB em todos os tempos”. Então teria de haver uma forma de tentar destruir essa imagem. Um grande acordão, mesmo que tácito, envolvendo lideranças políticas e segmentos das instituições do Judiciário e Ministério Público para aniquilar RC da vida pública. E é o que estão fazendo. Sua candidatura, a princípio, seria então uma forma de resistir e ao mesmo tempo denunciar essa perseguição.

Outro fator que tem forte repercussão nesse cenário é a origem de cada uma dessas lideranças políticas. Tanto Cássio como Maranhão e Cartaxo, ou mesmo Cícero, tem suas origens fincadas em famílias tradicionais e conservadoras, ao passo que Ricardo Coutinho, filho de uma costureira, forjou sua história “em defesa de todas as lutas e dos movimentos sociais”. Sua biografia o credencia, assim como todos os recordes de votações nos pleitos disputados, nos quais não sofreu uma única derrota.

Talvez seja a sua trajetória exitosa que o torne alvo do culturalismo racista e liberal conservador, conforme bem define JESSE SOUZA em, A Elite do atraso: “Muitas de nossas características foram atribuídas à dita herança portuguesa, mas não havia escravidão em Portugal. Somos, nós brasileiros, portanto, filhos de um ambiente escravocrata, que cria um tipo de família específico, uma justiça específica, uma economia específica. Aqui valia tomar a terra dos outros à força para acumular capital, como acontece até hoje, e condenar os mais frágeis ao abandono e à humilhação cotidiana. Isso é herança escravocrata, não portuguesa. Por conta disso, até hoje, reproduzimos padrões de sociabilidade escravagista como exclusão social massiva, violência indiscriminada contra os pobres, desigualdades sociais exacerbadas e um sistema de justiça conservador e preconceituoso”, arrisca-se a dizer com práticas de racismo judicial, como foi o caso da condenação penal racista proferida por uma juíza paranaense ocorrida essa semana quando afirmou na sentença que o acusado negro “seguramente era integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça”.

E então a pergunta: Quem são considerados na Paraíba os políticos afortunados, detentores de conglomerado empresarial distribuído entre toda a família? ou de grandes extensões rurais e rebanhos bovinos em terras tocantinenses? ou de rede de postos de revenda de combustíveis?

Apesar da devassa em sua vida feita pela Operação Calvário não se tem conhecimento que RC seja possuidor de grandes fortunas, fazendas, criações de gado, rede de combustíveis ou rede de empresas em nome de familiares.

Ao invés disso é considerado um expoente das forças políticas nacionais progressistas; um intransigente defensor do regime democrático e um indutor de políticas de fortalecimento do desenvolvimento, basta ver as inúmeras obras realizadas no período de suas gestões, seja como governador ou prefeito de João Pessoa e os seus discursos contundentes em defesa de uma política voltada para o combate às desigualdades sociais e fortalecimento da ao regime democrático.

Logo, em razão de ser um “desafortunado” do ponto de vista de herança familiar aristocrática e patrimonial, Ricardo Coutinho acaba sendo um perseguido da elite cultural racista e conservadora.

Destarte, o grande acordão é útil para alguns segmentos do MP apenas para os levar aos seus objetivos finais. Desse jeito, agem por etapas, cuja finalidade é alcançar seu próprio projeto de poder. Fazem acordo – mesmo que tacitamente e por atos omissivos – com as desavisadas lideranças mais frágeis para eliminar o líder político mais forte; conseguindo destruir a liderança maior, e pouco importam os meios, mas os fins, o passo seguinte será aniquilação das outras lideranças políticas objeto das “alianças” circunstanciais. Esse é o modo de agir da Lava Jato. Triturou o PT e agora está mastigando o PSDB. O objetivo não é combater a corrupção, mas criminalizar a política.

Então o leitor atento pode estar se perguntando: No início deste escrito se falou em quatro hipóteses fáticas. Cadê a quarta?

Bom, os leitores compreenderão a quarta hipótese fática e as conclusões do porquê Ricardo Coutinho deverá, concretamente, ser candidato a prefeito de João Pessoa na segunda parte desse texto.

ATÉ BREVE!

Essa história tem um quarto eu elemento…

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: