A carta de Raíssa Agra é um chamamento, um apelo ético!

Raissa Agra ocupou até ontem a vice-presidência da Fundação Espaço Cultural (Funesc). Na carta que divulgou em suas redes sociais para tornar público seu pedido de demissão, Raíssa explicou as razões que a levaram a sair do governo.

A maior parte da imprensa tentou restringir as insatisfações de Raíssa ao machismo de Damião Ramos, mas Raíssa foi muito mais além de demonstrar os arroubos misóginos do atual secretário de Cultura, cujas origens políticas mais remotas estão ligadas ao regime militar de 1964.

Governo João Azevedo é “autoritário, machista e conservador“.

Raíssa Agra definiu o governo João Azevedo como “autoritário, machista e conservador“, traços que ela considerada incompatíveis “com as promessas feitas em 2018 à população e a quem trabalhou por sua eleição.”

Ironicamente, João Azevedo confirmou o viés machista do atual governo ao nomear para lugar de Raíssa Agra… um homem. A partir de ontem, Pedro Daniel de Carli Santos é o novo vice-presidente da Funesc, que já tem na presidência outro homem, Walter Galvão – seduzido pela magia dos cargos e das gratificaçoes, o ex-ricardista roxo deixou a Secretaria de Comunicação do Conde para se jogar nos braços do reacionarismo mais abjeto, porque tenta se apresentar sob embalagem de uma continuidade, mas que a carta de Raíssa Agra expõe a mentira tenebrosa que existe por baixo do papel de presente colorido.

Eu era uma das poucas mulheres entre dirigentes dos órgãos de cultura, e mesmo assim não estava sendo chamada para reuniões internas por não aceitarem o contraditório.

Talvez a coragem que teve Raíssa Agra estimule outros dirigentes a denunciarem a viragem autoritária em curso na Paraíba, bem ao gosto desses tempos bolsonarianos. A manutenção de Damião Ramos no cargo de na Secretário de Cultura, apesar da instabilidade que provoca, é a demonstração do peso que o conservadorismo adquire no atual governo. Conheci Damião Ramos ainda secundarista, quando o mesmo ocupava a Chefia de Gabinete da Secretaria de Educação do governo de Wilson Braga (ex-Arena, à época PDS, depois PPB e hoje… Progressistas!).

Voltando a Raíssa, ela identifica bem a raiz autoritária do atual governo: a ausência de diálogo com a sociedade civil, revelada cada vez mais pela irrelevância como considera o papel da participação social em suas decisões – lembro que o Orçamento Democrático respira por aparelhos, hoje, porque sempre foi incompatível com o patrimonialismo da maior parte da Assembleia, que teme a organização do povo como o morcego teme a luz.

Certamente, o anúncio do apoio do atual governador à candidatura de Cícero Lucena, uma estrela cadente do conservadorismo paraibano, à prefeitura de João Pessoa, foi a gota d’agua para Raíssa Agra entregar o cargo, o que ela fez logo depois – imagino agora o constrangimento daqueles que antes de diziam de esquerda e, ocupando cargos no atual governo, serão obrigados a pedir votos ao ex-tucano e ex-cassista.

Para aqueles que sonhavam com a manutenção dos rumos inaugurados pelo projeto progressista e modernizante de Ricardo Coutinho, Raíssa Agra manda um recado que desfaz ilusões.

Por fim, os arranjos políticos que se anunciam para as eleições municipais sacramentam que não tem mais volta, o governo deu sua guinada e é definitiva.

Elegemos um governo que se anunciou progressista mas que rapidamente se aprumou para o atraso conservador.

Quem desconhecer, ou deixar de reconhecer, que, o que está em curso na Paraíba, faz parte da contra-ofensiva conservadora nacional que procura deter todos e qualquer avanço social, ou não entendeu nada ou o cargo é mais importante do que a ideologia.

Aqui, esse movimento é fruto da reação oligárquica contra qualquer opção política que não tenha a sua cara e não obedeça aos seus imperativos elitistas, familísticos e patrimoniais. A subserviência a esse projeto só revelará o oportunismo das acomodações que exige concessões éticas. E essa vem a ser a contraface desses tempos grotescos onde o individualismo domina e conosco se abraça para fazer morrer – ou metamorfosear – nossas ideologias.

Não sou de recomendar esse tipo de coisa a ninguém, porque, como disse Caetano, cada um sabe a dor e a delícia e ser o que é. Mas é sempre bom relembrar esse trecho da poesia de Guimarães Rosa, transformados por muitos em clichê: “o que ela [a vida] quer da gente é coragem.”

E sabe por que? porque a vida é mutirão de todos.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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