“A corrupção tem de ser praticada”: Válber Virgolino, Freud e a história

Quase sempre, a retórica anticorrupção esconde uma prática corrupta recorrente ou, no caso de quem não tem ainda acesso aos meios, um desejo de realizá-la.

O ato falho do deputado estadual bolsonarista e candidato a prefeito de João Pessoa, Válber Virgolino, revelado durante o debate entre os candidatos a prefeitura de João Pessoa, ontem à noite, na TV Arapuã, segundo o qual “a corrupção tem que ser praticada, não apenas falada”,
pode ser revelador de um desenho inconsciente.

Obviamente, ele tentou dizer “combate à corrupção”, mas é próprio do inconsciente nos pregar de vez em quando peças do gênero.

Válber Virgolino foi um dos beneficiarios da onda moralista que resultou na ascensão de Jair Bolsonaro ao poder. Apesar de tentar se apresentar como um outsider, como o presidente, Válber Virgolino é um macaco velho na política. Válber vivia a bajular Ricardo Coutinho, de quem foi secretário, até aprontar das suas e ser demitido pelo Mago da Secretaria de Administração Penitenciária da Paraíba.

Antes de se candidatar a deputado estadual, Virgolino foi secretário de Administração Penitenciária do governador do Rio Grande do Norte, Robinson Farias (PSD), eleito em aliança com o PMDB.

Foi durante a gestão de Virgolino que o PCC passou a dominar os presídios do Rio Grande do Norte, abrindo um confronto com a facção até então dominante, o Sindicato do Crime do RN. A disputa entre facções teve como ápice o Massacre de Alcaçuz, ocorrido em janeiro de 2017. Segundo o G1, “a rebelião mais violenta da história do Rio Grande do Norte” que teve como resultado o assassinato de 26 detentos, todos do Sindicato do Crime, e 56 fugas.

As campanhas contra a corrupção sempre foram farsas que resultaram em tragédia

A retórica contra a corrupção perpassa a história brasileira, desde que a República foi proclamada. Aliás, esse moralismo é próprio dos militares de classe média que assumiram o poder em 1889, ganhou contornos de obsessão com o tenentismo nos anos 1920 e, desde então, compõe o discurso de nossa elite econômica sempre que ela precisa, através dos sua prepostos na política e na imprensa, tirar do poder seus adversários.

Foi assim na campanha que levou Getúlio Vargas ao suicidio, em 1954, ao golpe civil-militar que derrubou João Goulart, em 1964, ao golpe parlamentar que tirou Dilma Rousseff da Presidência, e ao processo que condenou e prendeu o ex-presidente Lula para afastá-lo da disputa presidencial de 2018.

Pode parecer paradoxal que, após essas eventos, a corrupção endêmica brasileira, que corrói, em todas as esferas, nossas instituições dominadas por famílias da elite econômica, não tenha sido extirpada pelos arautos do falso-moralismo. Só a ingenuidade, ou a falta de conhecimento histórico ou ainda o mau-caratismo defende, por exemplo, que não houve corrupção no Brasil durante os anos em que os militares estiveram no poder depois de 1964.

Pelo contrário, a ditadura permitiu que a corrupção corresse solta sem meios para sequer denunciá-la. Ou em que período vocês acham que prosperaram alguns dos verdadeiros símbolos da corrupção brasileira como Paulo Maluf, Antônio Carlos Magalhães, José Sarney? Em que período prosperou gigantes como a Odebrecht, ou a Rede Globo, só para citar dois casos mais conhecidos?

Vocês acham que a corrupção diminuiu depois da Lava Jato? Os inúmeros casos em prefeituras Paraíba afora (Bayeux, Santa Rita, Cabedelo, Sapé) mostram que não há pedagogia no lavajatismo, apenas o uso do sistema de Justiça como arma contra os adversários políticos dessa elite econômica.

Ou vocês acham que a família Bolsonaro, um bando de mamateiros que enriqueceram na politica, sem nunca terem feito outra coisa, é honesta? Vejam os lobbies, principalmente o da indústria de armas, a que o atual presidente serviu no Congresso durante sua estadia de 28 anos.Para piorar, com Bolsonaro, emergiram inúmeros aventureiros, oriundos da polícia e entre pastores evangélicos que infestam hoje o Congresso, do qual a deputada federal carioca e pastora, Flor de Lis, é uma espécie de tipo ideal do banditismo que mistura o nome de Jesus à defesa da violência, ou seja, do extermínio dos pobres, como meio para enfrentar a crise social brasileira e a ausência da proteção do Estado.

O “bandido bom é bandido morto” que sai dessas bocas que só têm ódio a oferecer só vale para pobres, porque quando se trata de bandidos rico há sempre um porém, um desvio moral, um desajuste familiar a justificar o ato criminoso.

Notem que as soluções para problemas, alguna seculares, são sempre fáceis, e sempre vêm de mentes intelectualmente limitadas.

O fato de Válber Virgolino ter se encontrado com o presidente Jair Bolsonaro na manhã de ontem, em Coremas, foi mais uma desses eventos carregados de significados.

Realmente, Freud explica muita coisa.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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