10%? Revista Carta Capital começa a desvendar as manipulações da Operação Calvário

Sempre estranhei as razões pelas quais os famosos áudios vazados para imprensa, envolvendo diálogos entre Ricardo Coutinho e Daniel Gomes, não foram divulgados completos. O motivo para essa desconfiança era a impossibilidade de conhecer o contexto em que essas conversas aconteceram.

Esse mistério começa a ser desvendado a partir de agora. Matéria da revista Carta Capital dessa semana trata da perícia feita a pedido dos advogados de Ricardo Coutinho nos tais áudios.

O resultado é estarrecedor. “Quando se analisa a conversa na íntegra, o sentido espúrio atribuído pelos procuradores à conversa perderia completamente o sentido”, constata a revista.

Na degravação a qual a Carta Capital teve acesso, refere-se a um dos tantos encontro entre Ricardo Coutinho e Daniel Gomes para tratar das unidades de saúde administradas pela Cruz Vermelha (Hospital de Trauma de João Pessoa e Hospital Geral de Mamanguape).

No caso do famoso diálogo, divulgado como uma negociata entre os dois – lembram da taxa de propina de 10% e do 13° que Coutinho disse estar assegurado? – o assunto foi a aquisição de equipamentos para o Hospital Metropolitano Dom José Maria Pires, de Santa Rita, que estava prestes a ser inaugurado.

Vamos ao que diz a revista:

No excerto apontado como criminoso, Gomes afirma: “Consigo trabalhar seguramente com 10%”. Coutinho pergunta: “Mas isso no começo ou no fim?” Gomes responde: “Posso fazer quando o senhor fizer a primeira entrada aqui, eu já consigo viabilizar parte, posso adiantar”.

É impossível para quem lê ou ouve o diálogo completo concluir que essa conversa tem relação com alg na negociação de propina, a não ser por má-fé.

Conclua por você mesmo/a a partir do trecho do diálogo que veio em seguida, citado pela revista:

Eu só não consigo financiar os itens pequenos, mas os itens pequenos, governador, se eu tiver 3 milhões de reais, eu compro todos os pequenos. O resto todo eu consigo parcelar. Agora, quanto mais eu pagar à vista, eu consigo melhor preço, essa é a única vantagem”.

Segundo constatou a perícia, os 10% mencionados não se tratavam de percentual de propina. Segundo a Carta Capital, 10% correspondia à “entrada inicial para a aquisição de ‘itens pequenos’ em relação ao total do montante investido na unidade. Se comprados à vista, o governo obteria desconto na operação. Seria esta a discussão.”

Vou me abster de mais comentários para deixar os/às leitores tirarem suas próprias conclusões.

Depois eu volto para tratar de outro assunto dessa conversa: o 13° que Ricardo Coutinho nunca pediu nem, claro, jamais recebeu.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: