ANÍSIO NA ENCRUZILHADA

Em 2004, a conjuntura era muito mais favorável ao campo progressista. Lula havia sido eleito presidente e venceu na Paraíba com 57% dos votos no segundo turno. Em João Pessoa, o desempenho de Lula foi acachapante: 60,1% no primeiro turno e incríveis 76% no segundo.

O desempenho de Lula alavancou a votação do candidato a governador pelo PT, o então deputado federal Avenzoar Arruda. Na Paraíba, o petista obteve 12,5%, mas em João Pessoa chegou a 27,2%, ficando apenas a 3% de Cássio Cunha Lima, do PSDB, que tinha o apoio do então prefeito de João Pessoa, Cícero Lucena.

Pois bem, animado com o desempenho, Avenzoar achou que poderia se eleger prefeito de João Pessoa e decidiu confrontar Ricardo Coutinho, que já era amplamente favorito: Ricardo havia sido o deputado estadual mais votado da Paraíba e em João Pessoa obteve sozinho quase 12% dos votos!

O erro de Avenzoar

A campanha de 2004 para prefeito de João Pessoa entrava na reta final. Ricardo havia migrado para o PSB e sua candidatura avançava celeremente para vencer no primeiro turno, mesmo com as máquinas do governo estadual e da prefeitura atuando juntas para eleger Ruy Carneiro, candidato do PSDB, do governador Cássio e do prefeito Cícero Lucena.

Então, a notícia de um possível encontro secreto entre Avenzoar Arruda e Cássio Cunha Lima (PSDB), que teria ocorrido no apartamento onde morava o então governador, ganhou as páginas dos jornais e os programas de rádio.

Mesmo desmentido, a simples suspeita de que o encontro teria mesmo acontecido (os detalhes davam-lhe ares de verossimilhança) espalhou uma nuvem de dúvida sobre a candidatura de Avenzoar Arruda, que acabou por destruir não só qualquer chance de um bom desempenho eleitoral (ele acabou com pouco mais de 3% dos votos), como abalou pesadamente o prestígio político daquele que foi o primeiro deputado federal eleito pelo PT da Paraíba.

Depois do grande desempenho como parlamentar e como candidato a governador, Avenzoar desapareceu do mapa político paraibano. Candidatou-se na eleição seguinte, a de 2006, dessa vez a deputado estadual, e obteve apenas 5.803 votos. Era o fim da linha.

Avenzoar deixou o PT em 2008 para se filiar ao PSOL. Nunca mais candidatou-se a cargo eletivo.

Avenzoar Arruda foi um dos grandes quadros do PT e da esquerda paraibana. Foi presidente do DCE da UFPB, sindicalista, vereador por João Pessoa e deputado federal. Avenzoar nunca foi tratado como linha auxiliar do cassismo nem sua campanha demonstrava isso, mas sua ascensão política lenta, mas consistente, não resistiu às dúvidas sobre conversas pouco transparentes com adversários políticos.

Anísio Maia tem ainda uma chance de evitar sua morte política e escapar da pecha de que sua candidatura cumpre o papel de linha auxiliar da direita bolsonarista em João Pessoa. É o que o eleitorado progressista espera dele, um gesto de generosidade política: a renúncia à candidatura e o apoio àquele que é o único com chances de evitar um grande retrocesso político-administrativo em João Pessoa.

Ao invés de se apequenar mantendo uma candidatura que não é consenso nem dentro do partido, Anísio mostrará que, apesar das divergências, pensa no país e faz a grande política marchando com Ricardo Coutinho na reta final dessa campanha.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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