Quase dois anos depois, Calvário não provou que Daniel Gomes bancou shows para Ricardo Coutinho

A edição da Carta Capital dessa semana mostra a manipulação dos áudios gravados da Operação Calvário. A partir de perícia feita a pedido dos advogados de Ricardo Coutinho nos áudios, a matéria da revista de circulação nacional conclui:

Quando se analisa a conversa na íntegra, o sentido espúrio atribuído pelos procuradores à conversa perderia completamente o sentido”, constata a revista.

O blog analisou outros áudios gravados por Daniel Gomes. Lembram do estardalhaço feito pela Operação Calvário a respeito de shows do Rock in Rio do ano de 2017, que teriam sido pagos pelo empresário Daniel Gomes a Ricardo Coutinho?

Em 2017, o Rock in Rio, o festival de música que acontece periodicamente no Rio de Janeiro e reúne artistas e bandas do mundo inteiro, aconteceu em nos fins de semana entre os dias 15 e 24 de setembro.

Segundo consta na denúncia (ainda hoje não aceita) apresentada pela Operação Calvário contra o ex-governador, Ricardo Coutinho “era cortejado por DANIEL GOMES e destinatário de outras vantagens indevidas, aceitas sem muita cerimônia, consubstanciadas em reservas e pagamento de despesas para assistir shows de bandas internacionais (Bom Jovi, U2).

Essa conclusão da Calvário se baseia na degravação de um diálogo entre Ricardo Coutinho e Daniel Gomes, que aconteceu em 07/08/2017, também para tratar do Hospital Metropolitano.

Os próprios diálogos mostram que, apesar da “sugestão” de Daniel Gomes, Ricardo Coutinho não desejava ir ao Rock in Rio. Veja:


Daniel: Gilberto comentou comigo que o senhor queria ir no Rock in Rio, parece.

Ricardo: É. No, no Rock in Rio não… quando vai ter o Rock in Rio?

Daniel: Vai ter Rock in Rio em Setembro.

Ricardo: Sim … É em Setembro.

Daniel: Aí depois eu vou confirmar com ele aqui…

Ricardo: Eu quero é ver o show do U2que eu quero ir, em São Paulo.

Daniel: Show do U2…

Ricardo: Vai ter no Rio, mas eu tô fugindo do Rio.


Notaram a diferença? Como eu disse, na denúncia apresentada ao desembargador Ricardo Vital, a Operação Calvário diz expressamente, sem apresentar nenhuma prova, além das convicções baseadas em áudios descontextualizados de um delator em busca de escapar da prisão, que Ricardo Coutinho recebeu “vantagens indevidas”, que eramaceitas sem muita cerimônia”, entre elas pagamentos de despesas de shows de bandas internacionais, como Bon Jovi e U2.

Notem que no próprio diálogo o assunto dos shows é provocado por Daniel Gomes, e Ricardo Coutinho nem sabia direito a data do Rock in Rio. Mais ainda: ele diz que não tem interesse de ir ao Rock in Rio, que estava “fugindo do Rio”.

Como os shows de Bon Jovi no Brasil aconteceram no Rock in Rio, por que a insistência da Operação Calvário em inserir na denúncia que Ricardo Coutinho, um governador de estado, “aceitou sem cerimônia” a oferta de ir ao show, mesmo quando o próprio áudio indica o contrário?

Mas, consideremos a hipótese de que Ricardo Coutinho tenha mudado de ideia sobre ir ao Rio de Janeiro. A responsabilidade institucional de promotores recomendaria uma investigação mais apurada sobre o caso, e não aceitar como certa uma frágil hipótese como essa.

Primeiro, para saber se o então governador foi mesmo ao Rock in Rio ver Bon Jovi, bastaria uma simples consulta à internet, como eu fiz. No meu caso, que não sou promotor, bastou uma rápida pesquisa na internet.

Vamos juntando as peças. O show de Bon Jovi no Rock in Rio aconteceu numa sexta, 22 de setembro de 2017.

Nessa mesma sexta-feira, como registram vários sites de notícias, Ricardo Coutinho participou da  solenidade que, segundo o ClickPB “marcou o início das obras do primeiro Shopping Outlet da Paraíba, localizado às margens da BR-101, em Alhandra, litoral sul paraibano.”

Na sexta ele estava na Paraíba. No sábado, também. O MaisPB registra a presença de Ricardo Coutinho no Congresso Estadual do PSB, que aconteceu em João Pessoa.

Ricardo Coutinho podeira ter participado desses eventos na Paraíba e mesmo assim ter ido ao Rock in Rio para assistir ao show de Bon Jovi? Não seria impossível se ele tivesse utilizado, por exemplo, o avião do governo do estado. Nesse caso, bastaria uma consulta aos registros de vôos da aeronave. Mesmo assim, restaria provar que foi Daniel Gomes quem comprou os ingressos, não?

Com tantos senões, você deve estar se perguntando como uma acusação frágil como essa, cujos termos, como se viu, são de uma agressividade incomum, não só foi parar na denúncia da Operação Calvário como foi usada para justificar a prisão de 17 pessoas, entre elas um ex-governador, uma prefeita e uma deputada estadual, nesse último caso, uma prisão absolutamente inconstitucional.

U2

No caso dos quatro shows do U2, que aconteceram um mês depois do de Bon Jovi no Rock in Rio, a facilidade de provar que Ricardo Coutinho estava na Paraíba não foi a mesma porque, no fim de semana em que a banda se apresentou em São Paulo, o ex-governador não teve agenda pública.

Na quinta-feira (19) e na quarta-feira (25), Ricardo estava na Paraíba. Na quinta, recebeu o Consul dos Estados Unidos; na quarta, participou de um lançamento de livro.

Como eu só tenho o recurso da pesquisa na internet, não pude ir muito além. Ricardo Coutinho já disse que não foi aos shows. Nesse caso, cabe à Operação Calvário provar que suas acusações estão baseadas em fatos, e não apenas em “convicções”, já que tem meios quase ilimitados para fazer investigações.

Por exemplo, acionar a Polícia Federal para descobrir se um governador de estado não só participou de um show, mas também que tipo de transporte usou, que horas saiu da Paraíba, que horas retornou, como adquiriu os ingressos, em que hotel se hospedou, quais seguranças o acompanharam.

Eu volto a lembrar. Trata-se de um governador de estado. Por razões de segurança, um governador não pode sair por aí como se fosse um cidadão comum. Existe um protocolo que o obriga a ter a companhia de seguranças especialmente treinados. E essas atividades estão registradas.

Agora, pense comigo: quase dois anos depois de iniciada a Operação Calvário, nenhuma prova que corrobore as convicções dos promotores nesse caso foi anexada ao processo. A única “prova” são gravações de diálogos que não provam nada.

O motivo talvez seja esse: não há como provar as acusações feitas porque elas simplesmente não se sustentam em fatos. Essas acusações tiveram uma serventia, entretanto: foram amplamente exploradas pela imprensa adversária de Ricardo Coutinho para destruir a reputação de um político sobre quem não pesava uma única suspeita de desonestidade.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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