Eleição de Joe Biden é a vitória da mobilização antifascista do povo americano

A vitória do Democrata Joe Biden nas eleições presidenciais dos Estados Unidos, confirmada hoje, deve ser creditada ao espírito antifascista que mobiliza as Américas e à defesa dos valores não só democráticos, mas civilizacionais, que Donald Trump, assim como seu alter ego brasileiro, Jair Bolsonaro, são a negação.

Numa mensagem postada no Twitter hoje, a vice-presidenta eleita, Kamala Harris, atribuiu a vitória nas urnas, mais do que a Joe Biden ou a ela própria, à disposição dos eleitores de lutar em defesa da “alma americana”.

Kamala Harris é filha de uma indiana com um jamaicano. Ela disputou as primárias do Partido Democrata e sua presença na chapa incorporou acenou para os eleitores que, nos Estados Unidos, valoriza a diversidade não como um valor nocivo ao modo de vida americano, mas uma positividade irrefreável do nosso tempo. E a luta contra o racismo que conflagrou o país e uniu boa parte do dele numa luta de rua que durou semanas, teve grande relevância na mobilização popular contra Donald Trump.

A origem mestiça de Kamala Harris é expressão, pelo menos simbólica, de uma confrontação que, insisto, tem um recorte mais profundo, civilizacional, e que não é um dilema da sociedade dos Estados Unidos. O fascismo avança a passos largos no mundo, numa conjuntura que muito se assemelha ao pós-Primeira Guerra no clima de contestação às instituições do liberalismo. A resistência de Donald Trump em aceitar o resultado é mais do que birra de mau perdedor: é desprezo pela democracia.

Por isso, a derrota do atual presidente dos Estados Unidos é tão relevante e está sendo comemorada pelos democratas do mundo inteiro. Ela certamente ajudará a deter, resta saber se apenas temporariamente, a escalada fascista, já que o trumpismo é um dos suportes políticos e materiais para políticos como Viktor Orbán, da Hungria, Matteo Salvini, da Itália, e, claro, Jair Bolsonaro, do Brasil, entre outros.

Bernnie Sanders, pré-candidato de esquerda que disputou voto a voto com Biden as eleições primárias do Partido Democrata, foi mais direto. Também pelo Twitter, Sanders parabenizou todos aqueles que “tanto trabalharam para tornar esse dia possível”, numa menção à mobilização de base que mobilizou o eleitorado anti-Trump às urnas. Sanders também conclamou à mobilização por um governo que “trabalhe para todos, e não para poucos”.

Ao seu modo, tanto Harris quanto Sanders têm razão. Essa foi uma vitória da mobilização popular, de um eleitorado que já foi majoritário em 2016 contra Donald Trump, mas mesmo assim não impediu sua vitória.

Em 2020, o republicano obterá aproximadamente 10 milhões de votos a mais do que conquistou em 2016.

Mesmo assim, Joe Biden vencerá tanto no Colégio Eleitoral quanto no voto popular por uma margem provavelmente superior aos 5 milhões de votos.

Se considerarmos a pandemia que já matou mais de 200 mil estadunidenses, é um feito e tanto que, logo o pouco carismático e quase octogenário Joe Biden, tenha conseguido mobilizar massivamente o eleitorado anti-Trump para, nessa eleição, tornar-se o presidente mais votado da História dos Estados Unidos, um país acostumado com altos índices de abstenção.

O que aconteceu na eleição dos Estados Unidos não deve ser um fato isolado. Talvez os ventos dessa mudança atinjam o Brasil a tempo de influenciar nas eleições que se aproximam, já eles já sopram por aqui em muitos lugares. Qualquer que seja o resultado, entretanto, o bolsonarismo sairá dessa eleição como força amplamente derrotada.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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