HISTÓRIA DE UMA DERROTA. famílias, ódios e traições

As dificuldades políticas que Ricardo Coutinho enfrentaria nessa eleição para prefeito de João Pessoa eram evidentes e o ex-governador sabia disso. Como enfrentar a unidade conservadora, meticulosamente trabalhada do interior do Palácio da Redenção pelas forças sombrias que dele se apoderaram, para impedir não só a eleição de Ricardo Coutinho, mas de qualquer possibilidade de continuidade da experiência administrativa iniciada em 2004 e, com todas as contradições, recuos, erros e acertos, mantida por Luciano Agra e Luciano Cartaxo?

Uma unidade que tinha duas identidades: o profundo reacionarismo familiar de nossas oligarquias políticas, secularmente entranhadas nas instituições do que, por aqui, nunca foi uma República, e e o ódio comum àquele que ousa enfrentá-las e derrotadá-las desde 2004.

Notem que, assim como Lula, em razão de uma correlação de forças amplamente desfavorável no Judiciário e no Legislativo, Ricardo Coutinho não pôde ir além do que criar canais para que as reinvindicações do povo fossem ouvidas e inserir essas reivindicações no orçamento público. Além de investir para oferecer ao estado uma infraestrutura adequada, como escolas, hospitais, estradas, equipamentos públicos, viadutos.

Os governos de Ricardo Coutinho tinham uma estratégia, uma estratégia desenvolvimentista orientada para gerar e distribuir renda. E essa estratégia só poderia se executada se o orçamento público deixasse de atender prioritariamente às poucas famílias que, espalhadas por todo o estado, dele se beneficiavam antes. Não dava e nem era correto manter essa situação. Isso significava deixar de priorizar as chamadas “atividades-meio” (sobretudo, gratificações) para sobrar recursos para investir prioritariamente nas “atividades-fim”, aquela para a qual existe o governo.

Não foi por acaso que a campanha de destruição da imagem de Ricardo Coutinho começou imediatamente após ele deixar o governo, num esforço que uniu todos os ódios longamente alimentados não apenas à figura de Ricardo Coutinho, mas ao modelo administrativo e ao que ele representava para o povo paraibano.

Fora do governo, Ricardo virou alvo fácil. O primeiro passo para destruí-lo foi isolá-lo. E tudo começou com uma traição inominável. O governador que a ele deve o mandato entregou um Ricardo desprotegido à fúria dos leões enfurecidos. Em seguida, um exército de bajuladores que antes se mantinham ajoelhados diante do ídolo, viraram-lhe as costas, mostrando a quem realmente serviam (estes têm também famílias para manter às custas do orçamento público).

O mesmo aconteceu com o batalhão de blogueiros, sempre dispostos a defender o então governador. À primeira ordem vinda da Secom, estes passaram a agir instantaneamente como adversários políticos, numa servidão que confirma a cada dia a sentença de Joseph Pulitzer:

Com o tempo, uma imprensa cínica, mercenária, demagógica e corrupta formará um público tão vil como ela mesma.

Notem o corrente do reacionarismo se formando. E, claro, eles não poderiam deixar de se incorporar. Deputados que antes de acotovelavam em disputas, cujo objetivo era demonstrarem proximidade o governador e capitalizarem o prestígio de um governo bem avaliado, fizeram o que mais sabem fazer: abandonaram o barco como fazem os ratos.

Diante da oportunidade única de se de refestelar no banquete das oligarquias, num papel deplorável, até petistas “históricos” tentaram um lugar na sala de jantar da Casa-Grande, mas o máximo que conseguiram foi esperar na cozinha pelos restos que voltavam de lá – na certa, nunca entenderam o malthusianismo paraibano.

Sem armas, Ricardo então foi jogado sozinho na arena para enfrentar leões famintos. E era estratégico impedir que ele concorresse com chances de vitória em João Pessoa.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Um comentário em “HISTÓRIA DE UMA DERROTA. famílias, ódios e traições

  1. Tenho a impressão de que as eleições majoritárias atualmente só servem pra que a formalidade seja cumprida. O sistema, seja lá o que isso signifique, define os que deseja e os indesejáveis. Entrega a lista para alguns que hoje ocupam instituições do aparato jurídico/policial e pronto.
    Nesse cenário os indesejáveis para o”sistema” têm suas reputações assassinadas, tudo transmitido ao vivo pela mídia servil, sem direito ao contraditório.
    Portanto, não existe democracia.
    A balança pende pra um lado e esse lado não é nada bom.

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