A esquerda foi derrotada em 2020? A resposta é não

Faça uma pesquisa no Google. Digite essas três palavras-chave  (2020; eleições; PT) e veja quais  resultados aparecem?

As manchetes da grande imprensa sobre o que consideram ser a eleição de 2020 uma derrota eleitoral do PT e dos outros partidos de esquerda, com exceção do PSOL.

Muita gente foi na onda e, erroneamente (como pretendo demonstrar logo abaixo), comprou a tese.

Tentemos não perder o norte político. Para tanto, a primeira coisa a fazer é nos debruçar sobre os resultados da eleição para confirmar ou rejeitar essa informação – na realidade, uma opinião – de que a esquerda foi a uma das grandes derrotadas na eleição de 2020 ao lado de Jair Bolsonaro.

Onde o PT cresceu

Um primeiro dado a constatar é que realmente o PT perdeu prefeituras, comparando com 2016, que já foi um ano muito ruim. Observe abaixo o quadro comparativo das últimas três eleições municipais no Brasil extraído de um documento para subsidiar análises da eleição produzido pela Direção Nacional do PT a que tive acesso.

Esses números parecem mostrar uma queda sistemática da influência do PT, o maior partido da esquerda brasileira, principalmente se considerarmos que a expectativa era de uma recuperação. O PT elegeu 246 prefeitos em 2016 e, quatro anos depois, caiu para 175, isso, claro, sem considerar as disputas ainda em aberto no segundo turno. 

A frieza desses números servem apenas para confundir os mais desatentos sobre certos movimentos em curso que parecem apontar, como tendência, em outra direção. Para percebermos isso, é necessário considerar outras variantes. A primeira delas: o número totais de votos dados ao PT no primeiro turno de 2020, que mostram um leve crescimento entre 2016 e 2020 (o PT foi de 6.843.575, em 2016, para 6.971.136 votos, em 2020), uma diferença pequena, mas significativa.

Ainda assim, temos uma visão incompleta desses números porque eles não revelam ainda o mais importante. Quando se trata de um partido historicamente enraizado nos grandes centros urbanos do país e de onde suas principais lideranças saíram para conquistar o poder, é fundamental que olhemos com mais atenção o desempenho do PT nas cidades com mais de 200 mil eleitores.

Nesse ponto, o que os resultados de 2020 nos indicam é que o PT começa a recuperar influência nas grandes cidades brasileiras. Em 2016, o PT foi ao segundo turno em apenas uma cidade com mais de 200 mil eleitores (novamente em Recife, mas numa situação de difícil reversão, já que o oponente, o candidato à reeleição do PSB, Geraldo Júlio, obteve 49,34% no primeiro turno). O PT não venceu em nenhuma de médio e grande porte em 2016.

Já em 2020, o PT conquistou vagas no segundo turno em 15 cidades, duas delas em capitais (Recife e Vitória). As outras são importantes cidades, que concentram número expressivo de eleitores, como Osasco, Diadema, Marília, Juiz de Fora, Contagem, Caxias do Sul, Pelotas, Cariacica, São Gonçalo, Anápolis, Feira de Santana, Vitória da Conquista, Paulista e Santarém. Em todas elas, Lula foi um cabo eleitoral presente na propaganda eleitoral.

Boulos, Manuela, Campos, Sartori, Edvaldo

Além disso, é fundamental considerarmos a presença de candidatos/a de esquerda em cidades estratégicas nesse segundo turno de 2020: Guilherme Boulos, em São Paulo e Edmilson Rodrigues, em Belém, ambos do PSOL, e Manuela D’ávila, do PCdoB, em Porto Alegre. Esse quadro, obviamente, não considera o erro cometido por esses partidos de não se juntarem para lançar uma candidatura única no Rio, uma exigência para que Marcelo Freixo entrasse na disputa, o que ofereceria outra possibilidade de vitória na segunda maior cidade do país.

A esses resultados expressivos, devemos também considerar os desempenhos obtidos pelo PSB em Recife, com João Campos, que disputará com Marília Arraes o segundo turno, em Fortaleza, com Ivo Sartori, e em Aracaju, com Edvaldo Nogueira, ambos do PDT de Ciro Gomes – Nogueira concorre à reeleição e, em 2016, foi eleito pelo PCdoB.

Ou seja, os resultados podem não apontar uma vitória da esquerda, mas evidenciam uma recuperação política e eleitoral dos partidos que compõem a oposição anti-neoliberal a Jair Bolsonaro em 2020, resultado que pode ser redimensionado com os resultados do segundo turno, sobretudo se Guilherme Boulos vence em São Paulo, o que nos autorizará a falar, aí sim, em vitória.

Notem o seguinte. Mesmo com a derrota de 2016, quando a eleição aconteceu com o golpe de derrubou Dilma ainda quentinho, Haddad obteve quase 30% dos votos, e no segundo abocanhou expressivos 45% – considerem o ambiente tóxico do lavajatismo, que atingiu o auge em 2018.

É por isso que essa recuperação da esquerda em 2020 é tão expressiva. Esse discurso da grande mídia de tentar fazer crer que está em curso um movimento do eleitorado para o centro, levando em conta apenas as eleições municipais, parece-me absolutamente artificial e inconsistente. O recorte principal que ainda continua a determinar a divisão política do país é entre a centro-esquerda e o bolsonarismo, e o comportamento do eleitorado progressista dos EUA mostrou isso, com uma mobilização pró-Biden que foi muito além das possibilidades do Partido Democrata. Para tanto, Biden teve de abraçar uma agenda da diversidade e acenar para o eleitorado do “socialista” Bernie Sanders.

O descolamento para extrema-direita do PSDB e do DEM nos últimos anos, que transformou João Dória na principal liderança desse campo, além da captura dos partidos direitistas do Centrão por Jair Bolsonaro, todos unificados em aprovar a vaga bolsonarista para aprovar as reformas anti-povo, que é o que os faz sustentar o presidente, são fatores objetivos que impedem que uma alternativa viável nasça desse campo.

Mesmo na eventual derrubada de Bolsonaro da Presidência, Mourão ou Rodrigo Maia não parecem em condições de ocuparem esse espaço, que pertence a esquerda desde 1989, e que mesmo na ausência de Lula se mostrou como alternativa.

Tem uma turma raciocinando em termos de “frente ampla” no segundo turno de João Pessoa, tentando justificar com isso o voto no reacionarismo de Cícero Lucena. Depois eu volto para dizer porque eu também discordo dessa tese.

Mais equívocos

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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