A vez de Lígia Feliciano?

Quase esquecida, a vice-governadora Lígia Feliciano parece que não percebeu ainda o gigantesco espaço vazio que existe hoje na política paraibana. São situações como essas que põem à prova, como diria Maquiavel, a virtù, no sentido de qualidades inerentes do/a politíco/a, tanto para perceber as circunstâncias favoráveis — e também as desfavoráveis, — para saber atuar nelas.

Com a exeção de Ricardo Coutinho, não há em meio aos que postulam o cargo de governador da Paraíba no próximo ano, nenhuma liderança inconstentável que se mostre hoje com chances inquestionáveis de vitória. Romero Rodrigues e os irmãos Ribeiro não ostentam um perfil, além do conservadorismo, capaz de se colocar como uma novidade para o eleitorado. João Azevedo a mesma coisa. Retirando-lhe a máquina administrativa que está sob seu controle, nada restaria de sua liderança para agregar votos, afora o governo medíocre que realiza.

No campo da oposição progressista, Ricardo Coutinho já declarou que não será um obstáculo a uma composição com essas características e que pode, ao invés de disputar o Governo do Estado, lançar sua candidatura ao Senado. Ricardo Coutinho sabe que para aglutinar mais forças numa alternativa que represente o campo democrático e popular, que abrace um programa desenvolvimentista para o estado, que se proponha a retomar e aprofundar o projeto iniciado por ele, é necessário que surjam mais alternativas além do seu próprio nome. E Lígia é, sem sombra de dúvidas, um nome poderoso com capacidade de incluir nesse projeto até mesmo o nome do ex-prefeito de João Pessoa, Luciano Cartaxo.

Faltaria por parte dessa frente a apresentação de uma candidatura que seria uma novidade recheada de ineditismo político: a candidatura de uma mulher para finalmente ocupar a cadeira de governadora da Paraíba.

Como se sabe, em tempo algum, a Paraíba foi governado por uma mulher, a não ser nas raras ocasiões em que tanto Lauremília Lucena, a vice de Cássio Cunha Lima entre 2007 e 2009, como a atual vice-governadora, Lígia Feliciano (PDT), exerceram o mandato quando os titulares se afastaram temporariamente do país.

Lígia Feliciano foi também vice de Ricardo Coutinho e o seu partido, o PDT, tem uma longa tradição de defesa dos trabalhadores e do desenvolvimento nacional que remonta a Getúlio Vargas e Leonel Brizola, e que Ciro Gomes tenta atualmente retomar com um programa que ele chama de projeto nacional de desenvolvimento. Apesar dos atritos, eu diria que, no plano do programa, há muito mais complementariedade do que diferenças entre Lula e Ciro Gomes. Além disso, o deputado federal Damião Feliciano, que representa o PDT paraibano no Congresso, tem sido incansável na defesa da pauta progressista no parlamento nesses tempos de retrocesso.

Uma chapa que reúna as lideranças de Lígia Feliciano (PDT), Ricardo Coutinho (PSB) e Luiz Couto (PT), incluídas também, claro, as lideranças do PSOL e de outros partidos do campo progressista e de esquerda, teria um gigantesco potencial eleitoral, mais ainda porque se seria um palanque aberto às candidaturas de Lula, Ciro Gomes e Boulos.

Para agregar ainda mais peso político a esse bloco, não vamos esquecer que o Nordeste tem sido um bastião da resistência ao conservadorismo desde que Lula assumiu a Presidência, em 2003. Mesmo em 2018, no auge da reação conservadora e quando o bolsonarismo atingiu o ápice do seu prestígio eleitoral surfando na onda antipetista, Fernando Haddad (PT) venceu em todos os estados nordestinos, incluindo a Paraíba, com ampla margem de diferença.

As imagens acima permitem a visualização os desempenhos eleitorais dos três principais candidatos a presidente no primeiro turno de 2018. Notem que as vitórias de Jair Bolsonaro nos municípios do Nordeste representam ilhas esparsas no mar de vitórias de Fernando Haddad e Ciro Gomes.

O pedetista venceu no Ceará e em regiões do Rio Grande do Norte e da Paraíba. No segundo turno, o eleitorado progressista de Haddad e Ciro se uniu para impor uma fragorosa derrota a Jair Bolsonaro, mostrando que o eleitor nordestino rejeitou a agenda regressiva do atual presidente e continuaria a apostar na agenda que combine desenvolvimento econômico com distribuição de renda para a região, uma marca dos governos petistas. No caso da Paraíba, Fernando Haddad venceu no segundo turno em 220 dos 223 municípios.

Duas hipóteses precisam ser consideradas nas estratégias eleitorais do próximo ano. Primeiro, há uma boa probabilidade de Bolsonaro sequer repetir a votação obtida em 2018 — diferente de 2018, em 2022 o eleitor saberá exatamente de quem se trata, e o desempenho desastroso na Presidência, sobretudo na administração da pandemia de coronavírus, certamente empurrará o desempenho eleitoral do atual presidente ainda mais para baixo.

Segundo, ao invés do então desconhecido Haddad, o candidato que Jair Bolsonaro vai enfrentar não só é um velho conhecido do eleitorado, como tem mais prestígio, liderança e, portanto, muito mais capacidade de aglutinação. Eis porque, numa eleição em que o componente nacional tende a ter uma influência muito maior do que em eleições anteriores,  o palanque de Lula na Paraíba terá uma atenção especial do eleitor, principalmente se considerarmos os possíveis candidatos que vão dividir o campo conservador: João Azevedo (do direitista Cidadania), Romero Rodrigues (bolsonarista), Aguinaldo/Daniela Ribeiro (Progressista que tende a apoiar Bolsonaro).

Por conta disso, se as forças progressistas forem capazes de se unir numa ampla frente anti-bolsonarista, em torno de um programa que seja capaz de exprimir um projeto comum de estado, que se articule ao projeto nacional das candidaturas de Lula, Ciro Gomes e Boulos, e representada por nomes capazes de exprimir esse movimento de mudanças, não tenho dúvidas que o ocupará o espaço político e eleitoral que, nem de longe, por exemplo, a candidatura de João Azevedo será capaz.

Se Lígia Feliciano for capaz de perceber esse espaço vazio, agirá para ocupá-lo.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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