Dallagnol: “tive a honra de conhecer o promotor Octávio Paulo Neto ao longo desse tempo da Lava Jato”

Na quinta-feira, o programa Arapuan Verdade fez uma enquete na qual o ex-governador Ricardo Coutinho obteve 40% dos votos para o Senado, entre os 100 ouvintes que ligaram para a emissora. Talvez por isso não tenha sido obra do acaso que Luiz Torres e Cia tenham procurado o ex-coordenador da Operação Lava, Deltan Dallagnol para conceder uma entrevista sobre “combate à corrupção” na qual um dos temas, claro, foi a filha da Lava Jato, a Operação Calvário.

O entrevistador de evidente pendão bolsonarista começou perguntando se o Brasil está enfrentando um recuo no combate à corrupção, uma bola levantada para mais um ataque de Dallagnol ao Supremo: “Com certeza”, respondeu ele, com a convicção de sempre. Segundo o procurador, com a Lava Jato, o combate à corrupção no Brasil “avançou muito”.

Dallagnou passou a citar a ampla legislação criada nos últimos anos, citando explicitamente a Lei de combate à corrupção”, a das Organizações Criminosas que, para Dallagnol, representaram ”avaços legais”. Ele também mencionou “avanços institucionais”, como o fortalecimento e autonomia da Polícia Federal, do Ministério Público, da Receita Federal, do COAF. O distinto procurador só esqueceu de mencionar que todos esses avanços aconteceram durantes os governos petistas, e, talvez não por obra do acaso, interrompidos pelo governo Temer e, mais ainda, pelo governo Bolosnaro, que, paradoxalmente, como mostram as mensagens reveladas pela Vaza Jato, contou com o apoio do próprio Dallagnol.

O repórter passou a questionar, depois de elogiar efusivamente a Lava Jato afirmando que a Operação ganhou uma grande “adesão popular”, se o procurador considera que “errou” no caso das anulações recentes de “condenações” ou se essas decisões foram resultado do que ele chamou de “retaliação” do Supremo Tribunal Federal à Lava Jato.

Dallagnol disse que o ex-presidente foi investigado e condenado segundo “as regras do jogo” e que as contestações à parcialidade da Lava Jato e do ex-juiz e ex-ministro de Jair Bolsonaro, Sérgio Moro, são “narrativas” que visam impedir o combate à corrupção. O mesmo promotor que usou o famoso power point na apresentação da denúncia contra Lula por formação de quadrilha, e jamais mostrou provas, infelizmente não contestou com fatos nem mencionou a legislação para se contrapor as decisões do Supremo.

Depois dessa peroração inútil e já totalmente ultrapassada pelos fatos, dado que são poucos os que ainda acreditam na fantasia da imparcialidade e do respeito às leis por parte da Lava Jato, o repórter finalmente chegou ao objetivo para o qual a entrevista foi solicitada: a Operação Calvário, convertida logo numa apologia ao promotor Octávio Paulo Neto.

Dallangol disse que teve a “honra de conhecer o promotor Octávio Paulo Neto ao longo desse tempo da Lava Jato” — ora, ora, ora! Dallagnol também ressaltou o comprometimento do promotor paraibano com o combate à corrupção, lembrou dos festivais organizados por OPN, o Hackfest, e disse nele confiar “1.000%!” — revelando uma intimidade acima de qualquer prova.

Assim como Paulo Neto, Dallgnol disse ter ficado “frustrado com a decisão de Gilmar Mendes”. O termo frustrado representa talvez, digamos, um recuo tático dos termos usados em entrevista concedida à Folha de São Paulo por Octávio Paulo Neto sobre a decisão de Gilmar Mendes de enviar para a Justiça Eleitoral um dos processos da Calvário. Segundo OPN, a decisão de Gilmar Mendes “fomenta a impunidade”, matéria que Dallagnol retuitou, manifestando concordância com os termos utilizados.

Apesar de afirmar não conhecer os procedimentos da Cálvário, Dallagnol defendeu “o contexto” da decisão, que, para ele, ataca os pilares em que a Lava Jato se desenvolveu, cujo corolário foi a consideração recente da parcialidade de Sérgio Moro. Dallagnol usou o ministro Luís Roberto Barroso para atacar a Justiça eleitoral dizendo que nesse âmbito predomina a impunidade. O tom foi mais comedido, mas Dallagnol continua o mesmo lavajatista.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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