Ciro Gomes, a Lava Jato e a falsa narrativa dos barões do sistema financeiro

Vale a pena nos determos no capítulo do livro de Ciro Gomes Projeto nacional: o dever da esperança em que ele trata da Lava Jato e do debate sobre corrupção no Brasil. Para Ciro Gomes, a Operação Lava Jato poderia ter dado uma grande contribuição ao combateu à corrupção no Brasil, revelando o sequestro do Estado pela plutocracia, mas se perdeu nas heterodoxias do desrespeito à Constituição e aos direitos individuais, aos quais alguns membros do Judiciário e do Ministério Público se renderam. “O vilipêndio do Estado de Direito rouba nossa liberdade e nossa justiça”. 

Mas, não só. 

Ao atacar as empresas e não os corruptores que trabalham nessas empresas, a Lava Jato comprometeu cadeias inteiras de nossa indústria (petróleo, engenharia civil, indústria naval), não por acaso aquelas que ganhavam acelerada competitividade internacional, sobretudo as duas primeiras, contribuído ainda mais para intensificar nossa desindustrialização, causando desemprego e um vigoroso impacto no PIB do país, e num momento em uma grave crise se avizinhava. 

A Lava Jato ampliou seus tentáculos e trabalhou para paralisar o programa nuclear brasileiro. “O quanto essa operação teria se valido de informações de serviços de inteligência estrangeiros interessados diretamente em desmontar certas cadeias produtivas brasileiras?”, pergunta Ciro Gomes, lembrando que uma das primeiras iniciativas de Jair Bolsonaro na presidência foi entregar de bandeja às empresas estadunidenses, a permissão para entrarem no setor de engenharia civil brasileiro. Ciro estranha que os bancos, por onde teriam passado os R$16 bilhões em desvios estimados pela Lava Jato, não tenha sido sequer investigados.

A outra intenção da Lava Jato, articulada ao esforço de destruir os setores mais dinâmicos de nossa economia, foi criminalizar a política, jogando todos os políticos na mesma vala comum através de delações premiadas sem a devida sustentação em provas. A mídia foi parceira fundamental desse projeto, recebendo e divulgando “vazamentos espetaculosos e seletivos”, de delações premiadas que eram fruto de prisões provisórias à margem da lei e sem as devidas comprovações, e que serviam tanto para destruir reputações como para livrar corruptos da cadeia.

Mesmo considerando que ser acusado sem provas por criminosos confessos “não significa nada”, Ciro faz questão de lembrar que denuncia a Lava Jato porque não tem rabo preso, o que é demonstrado por sua trajetória de quase 35 anos de vida pública, em que foi deputado estadual, federal, secretário de estado, prefeito de Fortaleza, governador do Ceará e ministro duas vezes (da Fazenda e da Integração Nacional), sem nunca ter respondido a um inquérito “nem para ser absolvido”.

A corrupção produz um terrível impacto moral na sociedade, por isso mesmo, para Ciro Gomes, deve ser combatida sem tréguas, mas o esforço da imprensa que tenta cotidianamente superdimensionar sua importância, dando-lhe grande destaque no noticiário, faz isso para desviar a atenção do eleitorado dos verdadeiros responsáveis por nossa crise permanente: a desindustrialização e escoamento de nossos recursos para pagamento dos juros da dívida interna.

Ora, como a corrupção poderia ter esse impacto econômico que se apregoa se, por exemplo, os investimentos federais previstos para 2017, por exemplo, foram de apenas 1,4% do orçamento, enquanto o Brasil paga anualmente ao rentismo desenfreado valores que, no mesmo ano de 2017, chegaram a 6,1% do PIB, ou seja, de todas as riquezas do Brasil (para termos um parâmetro, o orçamento federal de 2017 foi projetado em R$ 3,5 trilhões, enquanto o PIB ou de US$ 2,063 trilhões, pouco mais de R$ 10 trilhões, hoje). Do orçamento federal saíram a “incrível quantia de R$400,8 bilhões” para o pagamento só dos juros da dívida pública, R$340,9 bilhões a parte da União (85%).

Ou seja, o Brasil compromete anualmente mais de 10% do orçamento só com pagamento de taxas de juros, o que restringe violentamento o gasto público com investimentos. Está aí a raiz da crise econômica, da falta de investimento e a razão dos péssimos serviços públicos que o país oferece aos seus cidadãos/ãs, sobretudo aos mais pobres. “Essa é uma narrativa falsa imposta por aqueles que não querem mudar o modelo que fracassa inapelavelmente desde os anos 1980, e que poderia ser perfeitamente chamado de corrupção institucionalizada, pois é o sequestro do Estado e de suas energias por uma minoria de poderosos barões do sistema financeiro”, finaliza Ciro Gomes.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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