A intelectualidade petista naturalizou a adesão ao neoliberalismo?

A INTELECTUALIDADE PETISTA NATURALIZOU A ADESÃO AO NEOLIBERALISMO?

Por Flávio Lúcio Vieira (professor do Departamento de História da UFPB)

O cientista político Roberto Bitencourt da Silva publicou artigo no site Jornal GGN cujo título (“A inflexão de Ciro Gomes à direita e a questão cubana“) é estapafúrdio por si só, já que o autor pouco se esforçou em discutir as ideias e o programa de Ciro Gomes para qualificar assim a candidatura do pedetista. Eis um exemplo do formalismo que não tem mais nada de radical da nossa esquerda, ancorado há muito na superficialidade e, pior, em equívocos e preconceitos que a mídia ajudou a difundir no Brasil ao longo das últimas décadas.

Como está se tornando comum, o autor evita adentrar no núcleo duro do pensamento de Ciro Gomes, como se revela nesse trecho: “Assim, é importante observar que a figura arquetípica do nosso passado nacional a qual melhor Ciro tende a se encaixar é a de Juscelino Kubitschek. Trata-se de um fosso oceânico em relação a um ícone do trabalhismo, Leonel Brizola.” Como tem gente agora se apropriar para dar um sentido muito particular à tradição do trabalhismo que Brizola representa, não? O autor mostra que claramente não leu o livro de Ciro Gomes, que elogia o governo JK, mas quando trata do governo de João Goulart, de quem foi vice-presidente, lembra que “o problema crônico na balança de pagamentos e disponibilidade de dólares” “já garroteava nossa capacidade de financiamento e, portanto, nosso desenvolvimento”, ou seja, o mesmo gargalo que Jango tentou finalmente enfrentar e foi por isso derrubado.

No mesmo parágrafo, o autor desdiz sua própria afirmação, revelando o preconceito com a tradição que ele mesmo tenta afastar de Ciro Gomes, quando se refere, quase em tom jocoso, proposta de Ciro reverbera o “antigo desenvolvimentismo de matiz cepalino”. Trata-se de um adesismo (involuntário?) ao neoliberalismo, que deve provavelmente considerar démodé qualquer ideia que remeta a um projeto autônomo de Estado nacional, porque, no fundo, é disso que se trata. Veja o tom do reacionarismo latente, afirmando que Gomes “basicamente defende uma reforma tributária progressiva, em articulação com uma perspectiva de crescimento econômico que confere um papel indutor ao Estado, almejando estimular a geração de empregos e a acumulação capitalista do chamado setor produtivo [grifos meus]”. Não seria pouco, claro, já que o PT governou o Brasil por 13 anos e manteve intocada a estrutura tributária do país. Porém, Ciro vai muito, muito mais além, porém não cabe aqui discutir, sendo suficiente lembrar da crítica que ele desenvolve sobre o rentismo lulo-tucano, que Roberto Bitencourt da Silva sequer menciona, tal a naturalização que adquiriu na nossa “esquerda”. Só lembrando que tal escola cepalina foi inaugurada por Celso Furtado no Brasil, e que conta com a continuidade de Maria da Conceição Tavares, entre tantos economistas estruturalistas, que jamais estiveram à vontade com o modelo adotado pelo PT no governo.

Sintoma do grau desse adesismo ideológico a que Lula submeteu seus apoiadores, Bitencourt da Silva chega a dizer, sem corar, que Ciro teria de “rebaixar muito o tão apregoado Projeto Nacional de Desenvolvimento” para (vejam só!) ter chance de ser apoiado pelas “direitas” e pelas “classes dominantes”, que não depositam “qualquer confiança” no pedetista, exigência que, obviamente, não pode ser feita a Lula por razões óbvias: Lula virou um homem da establishment. Do outro lado, segundo o autor, Ciro também perderia com a crítica programática ao PT, “junto às esquerdas e aos eleitores potencialmente progressistas”: sobre as tais “esquerdas”, resta saber se elas também naturalizaram a adesão ao neoliberalismo, como fez o PT e boa parte dos seus intelectuais; sobre os tais eleitores “progressistas”, é necessário se saber se são mesmo progressistas).

Por fim, querer reduzir Ciro e seu programa à opinião sobre o regime político de Cuba, com a qual muita gente de esquerda compartilha, é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. Primeiro, porque ressoa o autoritarismo mimado da despolitização que campeia em nossa “esquerda”, que dá carta-branca para Lula fazer e desfazer, inclusive se ajoelhar diante da “pior elite do mundo”, como Reinaldo Azevedo gosta de se referir, enquanto cobra de Ciro sobre uma questão externa, sendo necessário lembrar que, no fundamental, Ciro defendeu o direito de Cuba e do povo cubano à autodeterminação. Além disso, Bitencourt da Silva esqueceu de mencionar a primeira parte do vídeo divulgado na semana passada sobre Cuba em que Ciro critica o “imperialismo americano” (isso mesmo, nem Lula se refere aos EUA assim), lembrando o histórico de lutas nacionais do povo cubano, que não começou com a revolução de 1959.

Textos assim resumem bem o mal-estar que Ciro provoca nessa esquerda de fancaria, que sempre evita entrar no debate central proposto por Ciro Gomes, que é a adesão dos governos brasileiros desde FHC, passando por Lula, Dilma, Temer e agora Bolsonaro, todos tendo em prática o famoso tripé macroeconômico.

Enfim, como é impossível negar a adesão do PT ao neoliberalismo, fato inegável, pois não dá para apagar da história que gente como Antônio Palocci, Henrique Meireles e Joaquim Levy comandaram por anos nossa economia, mantendo a política de juros altos (os maiores do mundo à época), de endividamento (a dívida pública chegou a quase R$ 3 trilhões ao fim do governo Dilma Rousseff!) e de desindustrialização (a indústria brasileira compõe hoje 11% do PIB, um percentual igual ao do início do século XX, quando o Brasil era um grande cafezal) e, por isso mesmo, está se reconvertendo, um século depois, em um grande curral, cercado por plantações de soja.

Sobre essa “inflexão” nenhuma palavra, o silêncio de uma esquerda que há muito esqueceu da economia política.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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