Dirigentes do PSB chamam neolavajatista Gervásio Maia de autoritário e patrimonialista

Cassandra  Figueiredo  (Presidenta  da  Comissão  Provisória do PSB de João Pessoa), Veronica Ismael (Secretária-Geral), Patrícia  Oliveira  (Secretária  de  Organização), João  Vicente  Machado (Tesoureiro), Gilvanildo  Pereira (membro  da  Comissão  Provisória) e Priscilla  Gomes  (Membro  da  Comissão  Provisória) anunciaram, em carta divulgada hoje (20/09), desfiliação do partido. Os nomes mencionados acima devem se filiar ao Partido dos Trabalhadores em breve.Na carta (leia abaixo), os ex-dirigentes do PSB acusam Gervásio Maia de “prática  patrimonialista  e  autoritária”.

Desde o início de 2020, o PSB na Paraíba comandado pelo deputado federal Gervasio Maia. Desde então, o direção nacional do PSB foi dando mostras de que, sem mandato, a história do ex-governador Ricardo Coutinho, no partido desde 2003 e pelo qual se elegeu perfeito de João Pessoa e governador da Paraíba, não tinha mais relevância alguma depois que deixou o governo e ficou sem mandato.

Nunca é demais lembrar que Ricardo Coutinho sacrificou uma eleição certa para o Senado para ajudar a eleger o desconhecido João Azevedo governador, que, em troca, abandonou o PSB depois de tentar assumir o seu controle. Esse golpe articulado na surdina contra RC foi descoberto a tempo, e evidenciou a trama já em andamento para isolar ainda mais o ex-governador.

Único parlamentar federal do PSB, Gervásio Maia foi um dos poucos eleitos em 2018 a permacer solidário a Ricardo Coutinho, ao lado das deputadas estaduais Estela Bezerra e Cida Ramos e do deputado estadual Jeová Campos.

Como se veria depois, porém, a atitide de GM nada tinha a ver com lealdade a um projeto político. Maia tomou essa atitude por dois motivos: 1. Desejava ser candidato a prefeito de João Pessoa com apoio de Ricardo Coutinho e foi muito estimulado para isso; 2. Maia, entretanto, nunca foi bem-vindo no grupo de João Azevedo por motivos que o processo de escolha do candidato a governador em 2018 podem explicar.

O primeiro motivo para que o representante de uma das mais tradicionais oligarquias paraibanas ter permanecido leal a RC, o antíponda do que Gervásio Maia sempre representou para a política nordestina, começou a deixar de ter importância quando, em janeiro de 2020, o deputado federal foi “citado pela primeira vez” na Operação Calvário.

Desde então, nem Maia voltou a aparecer nos vazamentos ilegais da Operação Calvário nem falou mais em ser candidato a prefeito. Não foi só isso. O deputado submergiu de tal maneira que sequer participou – mesmo sendo presidente estadual do PSB – das conversas que definiram o lançamento da candidatura a prefeito na mais importante cidade do estado e na qual é eleitor.

Além disso, Gervásio Maia já pode ser considerado um membro da bancada lavajatista no Congresso. Na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, ele votou contra a PEC 5/21, de autoria do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP), que, entre outras coisas, acaba com a exigência de que o corregedor nacional do Ministério Público seja escolhido pelo conselho entre os membros do Ministério Público. A intenção é dar mais transparência e evitar corporativismo e impunidade. A PEC foi aprovada na CCJ, mesmo com o discurso quase histérico que Maia fez na sessão.

Mantendo a mesma linha, Gervásio Maia também votou contra a quarentena para policiais, militares, juízes, promotores e procuradores que quiserem se candidatar a algum cargo público. Membros dessas categorias terão de se afastar das funções quatro anos antes da eleição caso desejem disputar uma eleição.

Novas relações com João Azevedo

Por outro lado, as relações com João Azevedo começaram a perder o tom de beligerância para assumir cada vez mais ares de paquera, para usar metáforas que Jair Bolsonaro tanto gosta. A paquera parece que virou namoro e pode se tornar em breve casamento.

Em busca de um partido que tenha mais proximidade com Lula, já que o Cidadania é um dos maiores adversários do ex-presidente, João Azevedo parece disposto até a voltar ao PSB. É o que já se especula inclusive na imprensa que não vive sem recursos públicos.

Isso exigirá, por óbvio, um casamento de papel passado com Gervásio Maia, o dono do PSB na Paraíba.

Abaixo, a nota:

Carta aberta de desligamento da Comissão Provisória do PSB- João Pessoa

Na história recente da política partidária paraibana, poucos partidos podem apresentar um crescimento substancial, quantitativa e qualitativamente, como o verificado entre 2005 e 2018, quando o PSB chegou a comandar 52 prefeituras no estado além do governo do Estado (2011 a 2019).

Neste mesmo período, o PSB também cresceu nas câmaras municipais e na Assembleia Legislativa. Um crescimento que qualificou o debate público incluindo a minorias, os invisibilizados juntamente com os principais anseios da sociedade contemporânea.

Ainda nesta trajetória de gestão inclusiva, participativa e democrática, o PSB criou e implantou as principais políticas públicas, ancoradas por um projeto de desenvolvimento social e econômico transformador, reconhecidas por toda a Paraíba e ainda por especialistas em gestão pública.

A prática patrimonialista e autoritária, hoje em vigor no PSB, não condiz com os princípios de um partido socialista, que tem por base a defesa da liberdade, da justiça social, e a radicalização da democracia. A condução do presidente Estadual do PSB, o Deputado Gervásio Maia, não coaduna com esses princípios, não obstantes de sua cultura política, da prática oligárquica e de conchavos, que visam sobretudo, garantir sua
sobrevivência pessoal na vida pública.

O deputado tem, segundo a suas declarações intempestivas através da imprensa, desconhecido os agentes políticos históricos do PSB. Nega a promover reuniões, desconhece o processo de construção das decisões coletivas e segue negociando a legenda, oferecendo recursos do fundo partidário e tempo de propaganda eleitoral, no afã de se estabelecer em detrimento da identidade socialista do PSB.

Consideramos que o tempo é o senhor de todas as verdades e continuaremos a construir uma sociedade justa, igualitária e sobretudo democrática que garanta a cidadania e o desenvolvimento sustentável. Nossa energia estará voltada a resgatar o Brasil do Fascismo e do atual fosso de miséria, onde nos colocou Bolsonaro e seus comparsas.

A defesa do Estado democrático, de direito e o bem-estar social, nos rege. Na nossa tela, estão as eleições de 2022 e entendemos que essa retomada do progresso social, passa pela eleição do presidente Luís Inácio da Silva e de quadros nacionais, que defendam o modelo socialista e a soberania popular.

Possuímos lideranças com tal envergadura a exemplo do companheiro Ricardo Coutinho, Márcia Lucena, Estela Bezerra, Cida Ramos, Jeová Campos, entre outros e outras. Iremos somar onde nossa voz é considerada e esses princípios respeitados.

Diante dessa ruptura e dos “novos” rumos do partido, a Comissão Provisória do diretório municipal de João Pessoa vem a público comunicar a desfiliação coletiva, para que o partido possa seguir suas novas deliberações no jogo político estadual, com as quais a atual direção municipal não concorda.

João Pessoa, 20 de setembro de 2021.

Cassandra Figueiredo – Presidenta da Comissão Provisória
Verônica Ismael – Secretária-Geral
Patrícia Oliveira – Secretária de Organização
João Vicente Machado – Tesoureiro
Gilvanildo Pereira – Membro da Comissão Provisória
Priscilla Gomes – Membro da Comissão Provisória.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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