Walber Virgolino sem máscara: “meus cavalos vivem melhor que tu”

O deputado estadual da Paraíba, Walber Virgolino, é uma desssa figuras lamentáveis que vicejaram na política surfando na onda de chorume que se formou com a ascensão de Jair Bolnonaro. Em todos os lugares do país, políticos aproveitadores emprestaram sua voz à uma legião que se orgulha de ser os que são: em busca de curtidas, cliques e emojis de aprovação, e sem um pingo de constrangimento, longe disso, eles agora exibem nas redes sociais sua ignorância arrogante, compartilhando vilezas que antes só tinham coragem de manifestar em reuniões familiares e em restritas mesas de bar.

Ontem, Virgolino convidou seus seguidores a assitir a um vídeo postado em seu perfil no Instagram em que denuncia os maus-tratos que sofrem os animais que são recolhidos ao Centro de Apreensões de Animais da Prefeitura de João Pessoa. Ele chega a equiparar o lugar a um “campo de concentração“.

Como previsto, os adoradores do deputado nas redes sociais, os mesmos que seguem com ardor quase religioso Jair Bolsonaro, aplaudiram a manifestação. Soou estranho, entretanto, que essa manifestação tenha partido de alguém que, quando o assunto são os proverbiais maus-tratos a que são submetidos os seres humanos nos presídios brasileiros desaparece qualquer senso de civilidade.

Questionei ao deputado se a preocupação com o maus-tratos aos animais não deveria ser estender aos presídios, lembrando que muitos desses presídios foram administrados por ele na Paraíba e no Rio Grande do Norte. “Ou a vida humana vale menos que a de um cachorro?”, perguntei ao final.

Em reposta, Virgolino sacou o velho mantra bolsonarista seundo o qual “bandido bom é bandido morto”. Ninguém na Assembleia ou no Ministério Público, obviamente, vai cobrar de Walber Virgolino, uma autoridade pública, sobre uma declaração como essa, principalmente quando o contexto remetia ao tratamento dado aos presidiários. Foi a permissidade das instituições com esse vale-tudo retórico, que se desdobrou em violência real, e que no levou à beira do precipício atual que nos ameaça como democracia e até como nação.

Diante desse espetáculo de incivilidade do deputado e dos seus seguidores, que tinham acabado de receber a ração de ódio com a qual alimentam o espírito mesquinho, só restou-me o protesto inútil nas redes sociais, onde escrevi:

A brutalidade bolsonarista: Walber Virgolino faz demagogia tentando se mostrar indignado com a situação do Centro de Apreensão de Animais, equiparando-o, vejam só, a um “campo de concentração”. Questionado sobre a situação dos presídios, responde que “bandido bom é bandido morto”.
Vamos lembrar ao deputado: quem viveu em “campos de concentração” foram seres humanos para morrerem como bois morrem nos matadouros, em série, em câmaras de gás, de fome, aos milhões.
NAZISMO, VOCÊ VÊ POR AQUI.

De todo jeito, duvido muito que Walber Virgolino esteja realmente preocupado com o bem-estar dos animais – a intenção parece obedecer mesmo ao objetivo nutrido por ele de um dia ser prefeito de João Pessoa. Na mesma postagem, Joaci Júnior lembrou que Virgolino é adepto das vaquejadas.

Pois não é que o deputado foi ao meu perfil para dar uma resposta, que, se de um lado, é reveladora do seu desprezo pela vida humana, também é do quanto Virgolino ascendeu no padrão de vida como deputado e o fez incorporando os valores mais abjetos dos novos ricos – ele que, antes de virar deputado, há dois anos e meio, era um simples delegado de polícia.

@joacijunior68 meus cavalos vivem melhor que tu 😂😂😂

Eis minha resposta abaixo:

Com a complacência dos seguidores falsos moralistas, que antes eram capazes de enxergar ciscos nos olhos dos outros, mas não vêem a trava que toma conta de suas visões, até nisso Virgolino aderiu a Jair Bolsonaro, que antes criticava “mamatas” e hoje tem em torno de si uma corriola de mamateiros, incluindo os próprios filhos: o deputado é um dos mais gastadores da Assembleia:

Como mostra a matéria acima, só em verba idenizatória da Assembleia, fora o salário, entre abril a agosto de 2020, portanto em plena pandemia, o deputado gastou R$ 226 mil reais, com uma média mensal próxima dos R$ 34 mil reais. “Vale ressaltar que, nesse período, as atividades presenciais da Assembleia estavam suspensas”, lembra a matéria.

O tom jocoso exprime bem a completa alienação e desprezo de gente como Walber Virgolino e seus seguidores com a pobreza que nos rodeia, com os milhões de miseráveis que sempre povoaram o Brasil, com os que voltaram a sentir fome. Não seria surpresa se, a exemplo do ex-presidente João Figuereido, o último presidente da ditadura, ele prefira o cheiro do cavalo ao cheiro do povo.

Como lembrou Joaci Júior, o deputado se jacta de ser um dos adeptos e praticantes da vaquejada, se bem que, como mostram vídeos que circulam pela internet, não é lá grande coisa a destreza do ex-delegado de polícia sobre o cavalo já que, por vezes, ele troca de posição com com o boi e seja ele, e não o animal, a ser derrubado dentro da faixa de pontuação.

Mas, nas mãos dos verdadeiros vaqueiros, são os bois que sofrem nas quedas, com fraturas, principalmente no rabo, que é extensão da coluna vertebral desses animais. Tudo isso para divertimento de uma plateia que se acostumou a transformar em espetáculo o sofrimento, não só de animais.

Para terminar, escapa, por óbvio, ao deputado bolsonarista que a precoupação com o bem-estar dos animais é um avanço ético e civilizatório que só pode vir depois de pensarmos no bem-estar humano. Qual sentido faz uma sociedade que é capaz de se indignar com o que acontece com animais, e normaliza a miséria humana em seu estado mais bruto, como está acontecendo hoje no Brasil.

Também escapa a Virgolino a insensatez, que demonstra o quanto essa lógica bolsonarista é perversa e bárbara, de desejar a morte para os presidiários brasileiros, já que a maioria que enche os presídeios cometeu crimes banais, sendo que dezenas de milhares deles ficam presos por anos sem o direito de sequer serem julgados.

Duvido que se houvesse democracia social e racial na ocupação dos presídios brasileiros, onde pretos e pobres se amontoam, esquecidos, num espetáculo grostescos de incivilidade, que diz mais sobre nós do que sobre eles, o jargão que melhor resume Jair Bolsonaro (“bandido bom é bandido morto”) faria tanto sucesso na mentalidade nazista dessa gente.

No final das contas eles odeiam o povo. Eles odeiam os mais pobres.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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