Em Munique, da Netflix, Neville Chamberlain é o homem e suas circusntâncias

Ontem, assisti a Munique, da Netflix, e gostei tanto que estou aqui a escrever sobre minhas impressões a respeito do filme.

O enredo se desenrola entre os dias que antecederam o Acordo de Munique, assinado em 29 de setembro de 1938, o corolário da política de apaziguamento das potencias europeias vencedoras da Primeira Guerra (Inglaterra e França) sob a pressão das reinvidicações territoriais da Alemanha nazista.

O filme tenta recuperar a imagem de Neville Chamberlain, o primeiro-ministro inglês que articulou a conferência com a intermediação de Benito Mussoline. Hitler aceitou participar da reunião, mas aproveitou para humilhar as potêcias aliadas, obrigando-as a irem à Alemanha para uma reunião que durou menos de duas horas e decidir uma questão que envolvia a Checoslováquia, que não foi convidada para a Conferência.

Munique coloca em destaque as tensões no interior dos governos, inclusive uma suposta divisão no Exército alemão, que não apoiava uma nova guerra. Segundo o que se depreende, foi a ocupação acordada dos Sudetos que impediu a derrubada de Hitler, que teria sido preso caso tivesse invadido a Checoslováquia, como ameaçava, ato que atentava contra a Constituição alemã de então.

Os alemães também estavam divididos sobre a participação em uma nova guerra. Enfim, esses argumentos davam razão à estratégia de Chamberlain de evitar o confronto com a Alemanha, cedendo em todos os atos de desrespeito promovidos por Hitler ao Tratado de Versalhes, cujas resoluções afetaram pesadamente a economia alemã e ajudaram a manter vivo o revanchismo, principal combustível para ascesão do nazismo (num ensaio premonitório (As Consequências Econômicas da Paz), publicado logo após Versailhes, em 2019, John Maynard Keynes criticou duramente a Inglaterras e a França, que se abraçaram no esforço de tentar impedir a recuperação alemã, impondo pesados tributos de guerra).

Quando Hitler se apresentou para a guerra, França e Inglaterra recuaram. E Chamberlain se tornou o símbolo dessa covardia, tanto que renunciou logo após a ocupação nazista da França, para dar lugar a Winston Churchill, que denunciou desde o início a política de apaziguamento, sobretudo a de Chamberlain.

Daí por que Munique não é um filme magistral apenas por ser eletrizante do começo ao fim, sobretudo na segunda metade quando a ação de dois membros do escalão inferior dos governos inglês e alemão, com laços afetivos desenvolvidos nos anos de formação em Oxford, envolvem-se em atos de espionagem que põem em riscos a vida de ambos, numa Munique que vivia o auge do prestígio de Hitler e vigiadas pela onipresença das SS.

Munique se propõe a uma revisão histórica do papel de Neville Chamberlain e de sua política de apaziguamento. Uma frase dita por Chamberlain em um diálogo final com o protagonista principal do filme, logo após a assinatura do acordo, resume a ideia-força do filme: “Não é possível jogar poker com um gangster. Joguei com as carta que eu tinha na mão”. Ou seja, em Munique, a frase de Ortega y Gasset (“O homem é o homem e a sua circunstância“) ganha um significado prático porque insere a atuação de Chamberlain em seu devido contexto histórico.

Como político, Chamberlain respondia às pressões de um eleitorado que não desejava uma nova guerra, tanto que foi recebido em seu retorno a Londres pelo rei Jorge VI e por uma multidão exultante com os resultados obtidos em Munique. Segundo a versão do filme, Chamberlain sabia da inevitabilidade da Segunda Guerra e o tratado assinado com Hitler premitiu aos ingleses se prepararem para o que veria para frente.

A maneira como os franceses foram facilmente derrotados e os acontecimentos de Dunquerque, um dos maiores erros da estratégia nazista na Segunda Guerra, põem em dúvida essa versão.

A atuação de Jeremy Irons, que interpretou Chamberlain, é digna de uma nota à parte. Irons foi capaz de incorporar, sem maniqueísmos, um tradicional político inglês, cuja polidez e devoção ao Estado resumem uma época que a Segunda Guerra pôs fim. A combatividade de Churchill tinha muito de teatral, e era sem dúvida muito mais adequada aos novos tempos de guerra.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: