Os destinos entrelaçados de Veneziano e Ricardo Coutinho

O lançamento da pré-candidatura a governador da Paraíba de Veneziano Vital do Rego é o corolário de um processo que, a rigor, encerrou-se na última quinta (17), quando o dirigente nacional do PT, Márcio Macedo, veio a João Pessoa para assegurar ao senador emedebista que ele poderia contar com o apoio do partido.

Veneziano saiu da residência de Ricardo Coutinho, onde a reunião aconteceu, para encomendar as alianças do casamento, mascado às pressas para hoje (22).

Apesar das incertezas levantadas por muitos “analistas” da nossa imprensa, esse era um desfecho mais que previsível, bastando boa vontade e mais isenção para identificar certos traços das negociações nacionais em curso e os atores envolvidos nelas, agora apresentados como candidatos: Ricardo Coutinho, que soube fechar as portas para João Azevedo ao se filiar ao PT, e Veneziano Vitado do Rego, um senador que tem, pelo menos, mais quatro anos de mandato que pertence a um partido cortejado por Lula, sobretudo no Nordeste.

Ganhou Veneziano, que vai para a disputa ao governo, sonho acalentado desde 2010, tendo como suporte uma estrutura de partidos que lhe garante recursos do Fundo Eleitoral e tempo de TV, além de grandes chances de ter a noiva das noivas da eleição, Luís Inácio Lula da Silva, em seu palanque.

Ganhou Ricardo Coutinho, que soube atrair Veneziano Vital para a candidatura e com isso matar dois coelhos com uma só cajadada: com um candidato a governador competitivo, RC impediu que o PT se jogasse nos braços de João Azevedo, assegurando ao mesmo tempo para si um palanque estadualizado para dar suporte à sua candidatura ao Senado. Sem um candidato a governador como Veneziano, Ricardo teria sérias dificuldades para justificar nacionalmente por que o PT deveria abandonar João Azevedo, sobretudo depois da filiação do governador ao PSB, um movimento tardio, como analisamos no texto anterior.

O desafio de Veneziano e Ricardo será manter a afinação atual para fazer uma travessia que promete alguns percalços, a começar pela disputa já em curso do eleitorado de Lula e da base social petista, esta mais ampla que a militância do PT, sobretudo nos grandes centros. Entre outras questões, desperta interesse saber como Veneziano vai responder às inevitáveis inquirições sobre a Operação Calvário, a principal pedra no sapato do seu maior aliado e principal fiador de sua candidatura no PT.

Mas, certamente Veneziano sabia que se tratava de uma aliança cujo cálculo do custo-benefício deveria ser feito com bastante cuidado. Se ele pode ter perdas, terá, caso saiba dosar o discurso, certamente como incorporar o espólio eleitoral que representa os oito anos do governo de Ricardo Coutinho, que deu a vitória João Azevedo no primeiro turno de 2018 com quase 60% dos votos. E essa memória ainda está muito vivo, como demonstram as pesquisas para o senado, que Ricardo Coutinho lidera com folga, mesmo sem muita liberdade de movimento e pouquíssimos espacos na imprensa.

Veneziano e Ricardo Coutinho têm agora seus destinos eleitorais unidos.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: