O verdadeiro impasse da “terceira via”

A cada dia fica mais claro: a terceira via (PSDB, Cidadania, União Brasil), o bloco de partidos que, ao longo dos últimos 30 anos, agrupou-se em defesa de um programa econômico neoliberal para o Brasil, caminha para novo fracasso eleitoral.

A dúvida em 2022 é se os postulantes do tal “centro democrático”, como se auto-denominam esses partidos, conseguirão chegar às convenções como candidatos/as, ou se naufragarão, como já aconteceu com Sérgio Moro, diante da absoluta falta de perspectiva eleitoral. O fracasso da terceira via – não incluo nela Ciro Gomes, claro – é expressão mais visível de uma crise muito maior, essa insuperável: a crise da ausência de um programa alternativo para responder aos dilemas de uma nação que se desfigura a olhos vistos. Em suma, falta alguém reconhecer por lá, e ter a coragem de expressar publicamente, que não há saída dentro do neoliberalismo. O Brasil precisa de um new deal.

O dilema para a “terceira via” é que são muitos partidos e muitas lideranças nacionais que vão ficando, a cada eleição, à margem das disputas reais, depois de terem ficado por décadas no centro do debate político e econômico brasileiro, antagonizando com Lula e o PT.

Esse foi preço que esses partidos tiveram que pagar por terem entrado e protagonizado a aventura do impeachment que derrubou Dilma Rousseff da presidência, em 2016. O que se seguiu, o governo Temer, ajudou na transformação do bolsonarismo – um movimento assumidamente de extrema-direita, fato inédito desde no Brasil desde o integralismo – como a diferença que se trata de uma força política (e ideológica) que se tornou hegemônica na direita brasileira. E isso é absolutamente inédito.

Desde então, o Brasil foi lançado na situação em que vivemos atualmente, que vai muito além de uma crise, como tantas com as quais nos acostumamos a conviver nas últimas décadas. O que vivemos atualmente é de natureza diversa, porque de mais largo alcance e de mais difícil reversão: vivemos um impasse civilizatório, a fratura da nacionalidade, o fim do Estado nacional, da economia nacional, das instituições democráticas – a desmoralização acelerada das Forças Armadas, com sua conversão em partido político armado, assim como já foram convertida as Polícias Militares, é só mais uma evidência do caráter destrutivo do bolsonarismo. Destruir a nação e o Estado nacional ei o verdadeiro projeto do bolsonarismo, esse neofascismo à brasileira, como tal, anti-nacional.

Eis o verdadeiro impasse da terceira via e por que ela não se viabiliza como alternativa para o país: o que esses partidos e lideranças têm a oferecer como resposta à questão nacional brasileira?

Mais neoliberalismo?

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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