Imprensa.gov

Durante a semana santa, a imprensa.gov, como se convencionou chamar na Paraíba os setores do jornalismo político que não sobrevivem sem estarem agarrados às tetas do erário público, sentiu o golpe e resolveu partir para o contra-ataque contra os que tiveram a ousadia de criticar as férias que o governador João Azevedo resolveu tirar, em pleno abril, como se o Brasil e Paraíba não vivenciassem um das suas maiores crises.

Vale lembrar à imprensa.gov: governador não é um cidadão comum, muito menos um servidor comum. João Azevedo não foi nomeado nem passou em concurso público. Ele tem responsabilidades políticas e administrativas que são inerentes à função, para a qual, lembre-se, ele foi eleito, sabendo previamente dos sacrifícios à vida pessoal que, para quem tem espírito público, obriga-se a fazer quando ocupa um cargo eletivo. Mais ainda: quando João Azevedo viajou, a Paraíba ainda estava em estado de emergência em saúde pública. Ele e seus amigos-secretários não poderiam esperar até o final do ano para curtir as “merecidas férias” na Europa?

Certamente, passa distante da mentalidade de um tecnocrata como João Azevedo o sentido do que seja espírito público, o que denota ausência de uma ética republicana e expõe, por outro lado, pouca ou nenhuma dedicação ao bem comum. Traduzindo para a nossa realidade, a atitude de João Azevedo é reveladora do tamanho do retrocesso que a Paraíba vive hoje: governar por aqui virou novamente um pacto entre amigos.

Ao que parece, esses setores da nossa imprensa (a imprensa.gov) perdeu por completo o senso de vergonha, que antes os impedia, mesmo diante de situações contrárias aos seus interesses políticos (e econômicos), de criticar quem saía em defesa de mais dedicação ao bem comum e à coletividade.

Volto a repetir: João Azevedo não é um servidor público comum – aliás, a quantos servidores públicos cujo trabalho, em certas situações de dificuldades, é considerado imprescindível, os chefes pedem para adiarem suas férias e são atendidos? Mais do que um servidor, tem-se por óbvio que um governador seja uma liderança política e administrativa, e que, nessa condição, não cabe abandonar o barco quando se mais precisa dela.

Existe uma frase muita repetida que traduz com exatidão as relações incestuosa que certo jornalismo e certos jornalistas estabelecem com o poder: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”.

Se você tem dúvida sobre o que é uma coisa e outra na Paraíba, basta observar os banners publicitários de órgãos públicos que povoam as páginas de política da internet paraibana. Os dados dos Sagres do Tribunal de Contas do estado também explicam as razões para tanto amor a João Azevedo.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: