As dívidas que os democratas e quem se diz de esquerda têm com Ricardo Coutinho

Guardadas as devidas proporções, as trajetórias recentes de Lula e Ricardo Coutinho têm muitas similitudes. Por exemplo: ambos encerraram seus mandatos de presidente do Brasil e governador da Paraíba com aprovações recordes do eleitorado: Lula encerrou o mandato com 87% de aprovação; Ricardo, com 84%.

Lula elegeu a sucessora Dilma Rousseff, uma “técnica” de sua equipe ministerial, até então desconhecida para o eleitorado; Ricardo fez o mesmo: indicou o também desconhecido secretário de governo João Azevedo como seu sucessor e o elegeu no primeiro turno  ̶  a única diferença entre os dois casos é que Dilma manteve-se leal a Lula, enquanto João Azevedo traiu Ricardo Coutinho miseravelmente, em menos de um ano de mandato, jogando-o às feras que ainda hoje tentam devorar o ex-governador.

Como o ex-presidente Lula, Ricardo Coutinho sofreu e ainda sofre com denúncias, vazamentos seletivos de setores da imprensa.gov, que continua a tratá-lo como inimigo político, com acusações que nunca se comprovam, com o massacre cotidiano que tenta destruir sua reputação como cidadão e sua imagem pública para matá-lo como liderança política.

Depois de mais de três anos de investigações, os paraibanos ainda esperam pela apresentação das provas que corroborem os benefícios que o ex-governador por ventura tenha recebido dos esquemas que o acusam de ter chefiado. É estranho que as delações premiadas tenham sido vazadas, inclusive com aúdios e vídeos, e nada das provas tenham até agora chegado a um mísero jornalista, desses que quase viraram relações públicas do Gaeco na imprensa.gov.

Outro atributo que Ricardo Coutinho e Lula compartilham é a lealdade política. O ex-governador da Paraíba foi uma das vozes mais corajosas e enfáticas entre os governadores do Nordeste a denunciar as manobras persecutórias do conluio formado entre o ex-juiz Sérgio Moro e o ex-procurador do Ministério Público Federal, Deltan Dallagnol – ambos hoje assumidamente políticos e candidatos, – desveladas pela Operação Spoofing, que levou à condenação de Sérgio Moro como juiz parcial e anulou as condenações de Lula, decisão que foi ratificada pela própria ONU, que reconheceu não ter tido Lula um julgamento justo.  

Quando Michel Temer veio à Paraíba para inaugurar o Eixo Leste da Transposição de águas do São Francisco, Ricardo Coutinho estava lá. Na frente do então presidente, de seus assessores, da turba mobilizada para aplaudir Temer, RC lembrou que, depois de décadas de promessas vazias aos nordestinos, a obra finalmente foi tirada do papel no governo Lula, e Dilma Rousseff deu continuidade, deixando-a praticamente pronta. Só para constar, o então partido de RC, o PSB, fazia parte do governo de Michel Temer e o ex-governador escolher assumir o lado da justiça.

Em seguida, em um ensolarado 19 de março de 2017, dia de São José, Ricardo Coutinho convidou Lula para a inauguração popular da transposição, num ato histórico que reuniu uma multidão em Monteiro. Certas imagens o povo nordestino não esquece.

Um ano depois, Lula foi condenado e preso em tempo recorde para que não participasse da eleição de 2018, da qual era, mais uma vez, um dos favoritos. Por covardia ou oportunismo, muitos se afastaram do ex-presidente acreditando que ele estava acabado para a política. Ricardo Coutinho não foi um deles. Pelo contrário. RC continuou denunciando as perseguições ao ex-presidente e foi um dos que o visitaram na prisão, em Curitiba.

Ou seja, nos piores momentos da vida política de Lula e do PT, Ricardo Coutinho foi um dos mais valorosos e leais companheiros do ex-presidente. Ricardo nunca deixou Lula só.

Passada a tempestade, com Lula reabilitado para a política e favorito a vencer as eleições presidenciais de 2022, o ex-presidente começa a retribuir cada gesto generoso de Ricardo Coutinho.

Não deveria haver dúvida alguma no campo da esquerda sobre o papel de Ricardo Coutinho e de sua importância para a luta pela reconstrução democrática que envolverá as forças políticas do país; não deveria haver óbice algum no campo da esquerda paraibana que criasse dificuldades à candidatura de Ricardo Coutinho ao Senado, que, enquanto foi governador, sempre foi tratado por esses mesmo setores como uma liderança política gigante. Fora do governo, preferem as companhias que sempre disseram combater, as companhias que estão no centro do poder na Paraíba: João Azevedo, Aguinaldo Ribeiro e Cícero Lucena.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: