Como Cássio Cunha Lima e Fabiano Gomes ajudaram Nilvan Ferreira a se tornar Nilvan Ferreira

Era maio de 2010, 25 de maio para ser mais preciso. Cássio Cunha Lima concedia entrevista ao programa de rádio do meio-dia na Arapuã FM, comandado à época por Nilvan Ferreira, que dois anos antes havia migrado de Cajazeiras para João Pessoa, para compor uma dupla com Fabiano Gomes.

Cássio não era mais governador. Em fevereiro de 2009, ele perdera o cargo de governador após o TSE ter cassado seu mandato por abuso de poder econômico na eleição de 2006.

Durante a entrevista, Nilvan Ferreira quase não deixou o ex-governador falar, assumindo o papel quase de inquisidor, como se Cássio não fosse um entrevistado, e, sim, um adversário político. Até que Cássio perdeu a paciência e abriu o jogo:

– Não vou bater boca com você. Espero que respeite esse espaço mínimo que tenho. Você vai ficar na vantagem, vai ficar me interrompendo e amanhã, depois de amanhã, o resto do tempo, vai ter esse microfone à sua disposição. Peço que você escute meus argumentos para que possa esclarecer o que esse espaço radiofônico durante meses tentou distorcer. Nunca lhe fiz um telefonema, pergunte a João [Gregório] se eu já fiz algum pedido pela sua cabeça. Contribui com sua vinda para João Pessoa, tenho consciência disso, acho que você sabe disso.

Com essas palavras e com a autoridade de ex-governador, Cássio expôs ao público as profundezas do que nós chamamos, hoje, por aqui de imprensa.gov.

Fabiano Gomes detalha essa história

Fabiano Gomes já contou essa história várias vezes e em variadas ocasiões. Antes de escrever esse texto, pedi ao radialista que contasse como ele e Nilvan Ferreira chegaram aos microfones da Arapuã de João Pessoa.

Segundo Fabiano, antes de vir para a capital, a dupla fazia sucesso na emissora da Arapuã de Cajazeiras. Até que, em 2005, o proprietário do Sistema Arapuã, João Gregório, demitiu Nilvan Ferreira. Em solidariedade ao parceiro, Fabiano Gomes abandonou a Arapuã e os dois aceitaram o convite e se mudaram para a concorrente, a rádio Alto Piranhas, onde permaneceram até 2007, quando vieram para João Pessoa.

A história dessa mudança é um dos capítulos à parte na história das relações entre imprensa e poder político na Paraíba. E Fabiano Gomes é um dos poucos a assumir abertamente, como ele gosta de dizer, sua “parcialidade”.

Gomes ajudou a coordenar a campanha ao governo de Cássio Cunha Lima em Cajazeiras na eleição de 2002, com quem, desde então, estabeleceu uma relação de amizade e lealdade política, que se manteve por longos anos. Eleito, Cássio Cunha Lima recebeu uma dura oposição do Sistema Correio.

E foi nesse embate com o Sistema Correio, segundo Fabiano Gomes, que levou Cássio a convencê-lo a vir trabalhar em João Pessoa. À época, a Correio tinha três sertanejos comandando o principal programa político da emissora, o Correio Debate, dois deles de Cajazeiras, Gutemberg Cardoso e Josival Pereira, e um sousense, Rui Dantas.

Segundo Fabiano Gomes, a intenção do então governador era “combater o trio da mentira”, como ele chamava. O plano inicial envolvia apenas a vinda de Fabiano Gomes para uma das rádios que apoiavam o governo Cássio. Fabiano negociou com uma delas, mas resolveu aceitar a proposta da Arapuã. Perto da estreia, entretanto, Fabiano, que ainda hoje sofre de depressão, sentiu-se só e voltou a Cajazeiras. E só retornou a João Pessoa quando João Gregório foi convencido, segundo ele com a ajuda de Cássio, a incluir Nilvan Ferreira no projeto radiofônico.

Os dois vieram para João Pessoa. Depois de várias tentativas sem resultado, a vinda de Fabiano Gomes e Nilvan Ferreira finalmente atingiu o objetivo e o Correio Debate passou a ter um concorrente à altura no horário.

“Passamos a ser os porta-vozes de Cássio na Arapuã fazendo o contraponto ao Correio”, resumiu Gomes a atuação dele ao lado de Nilvan Ferreira.

Depois que Cássio saiu do governo…

Depois da cassação, Fabiano Gomes começou a notar mudanças no tom de Nilvan Ferreira em relação a Cássio. Depois do carnaval de 2009, numa quinta-feira, Nilvan Ferreira começou a criticar o ex-governador por conta de um patrocínio do governo estadual com o piloto de Stockcar, Valdeno Brito, o que acabou em bate-boca ao vivo entre os dois.

As divergências só aumentaram e, um mês depois, em reunião com o empresário João Gregório, Nilvan Ferreira bateu na mesa e disse que só continuaria a fazer o programa sozinho. Nilvan, claro, venceu a peleja e deixou o velho amigo na estrada. Fabiano Gomes que foi, ao lado de Cássio Cunha Lima, o principal responsável por sua vinda para o estrelato do rádio paraibano.

Como esse texto ficou longo, deixo para outra oportunidade a história de como o ex-comunista, ex-presidente do PCdoB, ex-militante do movimento secundarista, Nilvan Ferreira, virou um bolsonarista de carteirinha.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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