DATAFOLHA: com 61% no Nordeste, Lula será o principal eleitor de Veneziano e Ricardo Coutinho

A pesquisa Datafolha divulgada ontem é uma péssima notícia para os simpatizantes e apoiadores da reeleição de Jair Bolsonaro, sobretudo em estados do Nordeste, como Pedro Cunha Lima e Nilvan Ferreira. O governador João Azevedo também não deve ter dormido bem ontem à noite. Segundo o Datafolha, Lula lidera com 48% dos votos e, caso a eleição fosse hoje, venceria no primeiro turno, já que a soma dos votos dos outros candidatos chega a 40%. Bolsonaro está 21 pontos atrás de Lula.

No Nordeste, a situação é ainda pior para o bolsonarismo. Aqui, Lula coloca 45% de frente sobre Jair Bolsonaro (62% a 17%). Se o resultado do Datafolha é péssimo para o bolsonarismo, os candidatos apoiados por Lula e pelo PT na região, em particular, os candidatos ao governo, Veneziano Vital, e ao Senado, Ricardo Coutinho, só têm a comemorar.

É claro que ser apoiado por Lula no Nordeste não significa vitória certa. Não é disso que se trata, como tentou simplificar o secretário de Comunicação, Nonato Bandeira, quando menosprezou, em entrevista concedida em março, o papel de Lula nas eleições na Paraíba, isso logo após o ex-presidente e candidato do PT à sucessão de Jair Bolsonaro ter declarado apoio a Veneziano, em entrevista concedida à rádio Espinharas, de Patos.

Vale a pena lembrar. Trata-se do mesmo Nonato Bandeira que, em 2016, defendeu que “corrupção poderia ser institucionalizada”, continuaria a “obstrução da justiça”, economia do país seria arruinada, “jogando milhões de chefes de família no desemprego”, indústrias fechadas, haveria “fuga de capitais e aumento da dívida pública” e, por fim, as estatais seriam sucateadas (“Correios e a Petrobras”), caso o PT continuasse no governo. Uma premonição às avessas de um antilulista, não é mesmo?

Nonato seguia o mesmo raciocínio usado pelo jornalista Josival Pereira. Em agosto de 2021. Pereira publicou um no Portal Correio, onde trabalha, cujo título prescinde de qualquer argumento: Em toda história, Lula só ganhou uma eleição para governador na Paraíba”Para Josival Pereira, “historicamente, a participação de Lula “nas eleições na Paraíba não são decisivas. Basta ver o retrospecto das eleições estaduais para se verificar que o apoio do líder petista não tem resultado em vitória”. Uma obviedade tão grande que chega a ser pueril.

A questão não é essa. Se é óbvio que Lula não ganha eleição, é inegável, entretanto, o potencial que o candidato do PT à presidência tem para transferir votos, sobretudo em eleições nacionalizadas, como foram as de 2002 e tendem a ser a de 2022. É só observar as pesquisas, nas quais, parte considerável do eleitorado lulista diz que um candidato apoiado pelo ex-presidente tem grandes chances de também receber seu voto.

Em 2002, por exemplo, a soma dos votos dos dois candidatos a governador apoiados por Lula (Roberto Paulino, do PMDB, e Avenzoar Arruda, do PT), em João Pessoa, foi de quase 70% – aliás, a votação obtida por um candidato do PT em João Pessoa foi a maior da história.

No estado, Avenzoar conquistou 12,57% dos votos, outro recorde para o partido, jamais alcançado novamente porque, entre outras coisas, o PT não mais lançou candidatos a governador. A própria votação de Roberto Paulino, que começou a campanha com a sensação de uma derrota antecipada por conta do amplo favoritismo de Cássio Cunha Lima, foi claramente impulsionada pelo apoio dado e recebido de Lula.

Se alguém tem dúvida, basta observar a ascensão que o PT e os outros partidos progressistas experimentaram no Nordeste depois de 2002. De partido secundário, que falava para nichos eleitorais, o PT se tornou o partido mais relevante da região, governando diretamente 4 estados (Bahia, Rio Grande do Norte, Ceará e Piauí) e ocupando espaços expressivos em outros. A própria eleição de Ricardo Coutinho, em 2010, é parte dessa mudança.

Claro que só o apoio de Lula é insuficiente. Lula não é mágico. É preciso que o candidato apoiado por ele parta de uma sólida base de apoio e, tão importante quanto, guarde identidade política e programática com o ex-presidente. É o caso de Veneziano Vital. Veneziano foi eleito prefeito de Campina Grande por duas vezes, enfrentando nas duas ocasiões a máquina do governo estadual nas mãos de Cássio Cunha Lima. As duas eleições (2004 e 2008) aconteceram durante o governo de Lula. Quando candidato a deputado federal, em 2014, Veneziano obteve a incrível votação de 177.680, quase 10% dos votos. Em 2018, foi o mais votado para o Senado. Uma liderança ascendente e preparada para ousar voos mais altos, como faz agora, abrançando uma aliança e um programa progressista. 

Enquanto foi prefeito de Campina Grande, por exemplo, o PT teve papel destacado e ocupou generosos espaços na administração (Veneziano, como já lembrei aqui, implantou o orçamento democrático na cidade). A atuação de Veneziano como parlamentar na Câmara e no Senado é totalmente alinhada às posições progressistas em defesa dos direitos sociais, das estatais consideradas estratégicas, contra o Estado mínimo e pela soberania nacional.

Ou seja, o eleitor terá facilidades de identificar em Veneziano proximidades com Lula que vão além de uma declaração de apoio protocolar. Não é fruto do acaso que Lula faz questão demonstrar publicamente, como já o fez em várias ocasiões, seu apoio a Veneziano.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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