Secretário da Educação de João Azevedo diz que auditoria do TCE nas escolas estaduais foi manipulada

O Secretário de Educação da Paraíba, Cláudio Furtado, disse, durante entrevista ao programa Correio Debate, que o Tribunal de Contas manipulou a amostragem da auditoria feita em escolas públicas da Paraíba sobre as condições da infraestrutura delas. Observem o que disse o secretário (confiram também no vídeo abaixo):

Olhe, é bom a gente dividir em duas coisas. O Tribunal fez uma auditoria em quase… em mais de 246 escolas, eu acho [foram em 278, secretário]. Só 94 são estaduais. Então se divulga às vezes números de percentuais onde você está misturando as duas redes. Então, assim, tem números ali que você coloca que tá as redes municipais embutidas. Quando você pega os números do próprio Tribunal e olha aqueles números no recorte da amostra que foi feita, não é aqueles números divulgados que aparecem nas manchetes. Nós questionamos a forma como foi feita. Você publiciza primeiro uma ação, certo… É… também questionamos a forma de amostra, porque a amostra você procurou as piores escolas, entendeu? para fazer isso. Mas, mesmo assim, se você olha a fundo o relatório, é… não tem esses números, que são mostrados, só alguns.

Visivelmente nervoso, Cláudio Furtado mostrou com essa declaração que não tem argumentos para refutar as conclusões do relatório da auditoria do TCE, que revela sem deixar, aí, sim, margem para dúvidas, a sua incompetência do secretário. Quando divulgamos aqui os resultados da auditoria segundo a qual, entre outras coisas, em 80 das 94 escolas estaduais fiscalizadas não houve nenhuma “reforma, recuperação e/ou pintura” chegamos, baseados na amostra, a um percentual de 86% das escolas estaduais nessa condição (veja o gráfico 1 abaixo). Esse percentual está errado, secretário? Por isso, ele preferiu colocar em xeque o trabalho dos 90 auditores e técnicos de controle externo do TCE que visitaram, em 80 municípios, 278 escolas estaduais e municipais, na última terça-feira (07/06), afirmando com todas as letras que essas eram “as piores escolas” e, em razão disso, foram priorizadas na amostra. Em outras palavras, Furtado disse que os auditores fraudaram o trabalho de pesquisa.

O entrevistador da Correio, Lázaro Farias, tentou confirmar o que acabara de dizer o secretário, sobre o Tribunal de Contas ter escolhido intencionalmente “as piores escolas” da Rede Estadual para fazer a auditoria e produzir um resultado negativo para o governo. “Foi isso que o senhor disse ou eu me enganei?”, perguntou Lázaro.

Cláudio Furtado tentou explicar como o método de fraude estastítica foi usado pelo TCE para produzir os resultado que ele tentava contestar. Sem apresentar provas, Furtado foi em frente: “Eu posso escolher aleatoriamente 94 das 640 escolas, ou eu posso escolher algum índice, baseado nos próprios índices que o tribunal tem, da escola, e averiguar.” Notem que Cláudio Furtado esclarece a reafirma a denúncia, dizendo que, como o TCE tem um banco de dados, sabe quais são “as piores escolas”.

O secretário também disse que o TCE deixou de divulgar números do relatório que favoreceriam o governo, mas voltou atrás e, em seguida, jogou a responsabilidade sobre a “imprensa”.

Por outro lado, ao dizer que o TCE visitou “só” 94 escolas, das 278 auditadas, Cláudio Furtado tentou confundir deliberadamente a população, como faz Jair Bolsonaro para colocar em dúvida as pesquisas eleitorais, quando a distribuição estatística de 2 ou 3 mil entrevistados oferecem uma ideia aproximada de suas escolhas eleitorais. Ora, secretário, o senhor sabe que a auditoria foi feita por amostragem e que as 94 escolas representam 15% do total de escolas da rede estadual, que são 640. E 15% é uma amostragem muito representativa.

Veja abaixo um mapa da distribuição pelo estado das escolas auditadas.

O secretário de educação chegou a mentir na entrevista ao dizer que, na divulgação dos resultados, foram misturadas às duas redes, com escolas das redes municipais embutidas na rede estadual. Mais uma vez, repito, isso é falso. Os gráficos abaixo foram extraídas do relatório “Auditoria Coordenada na Educação – Retorno às Aulas”, produzido pela equipe que coordenou o trabalho, e desmentem por si só o secretário.

Gráficos 1 e 2

Como dá para ver, os quadros detalham em colunas os números de cada rede, sendo que o gráfico 2 da direita separam por cor os percentuais de cada rede.

Abaixo, os áudios com os trechos da entrevista de Cláudio Furtado ao Correio Debate.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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