João Azevedo, o governador que ninguém quer e respeita

Tudo aconteceu numa casa de recepções de João Pessoa, dessas onde são feitas grandes eventos. O lugar estava pronto, iluminado e colorido, não para uma festa de casamento ou aniversário, mas para o ato que deveria marcar, como era a expectativa da imprensa, dos apoiadores e do governador João Azevedo, o início da campanha para o senado de Aguinaldo Ribeiro. Afinal, eram meses de espera e todo mundo já estava se saco cheio daquele lenga-lenga, daquele vai-não-vai.

Um telão com as imagens dos de Aguinaldinho e João Azevedo dominava o ambiente, atrás de uma mesa onde sentariam os principais convidados para o ato político e onde certamente discursariam os futuros candidatos.

O público, vindo de vários lugares e cidades próximas, começava a encher a casa de recepções. A prefeita de Bayeux entrou conduzindo uma pequena multidão de barulhentos cabos eleitorais, todos devidamente paramentados com uma camisa onde se lia no peito “Aguinaldo, meu senador”. Tudo estava como no script elaborado por Cícero Lucena, Nonato Bandeira e Ronaldo Guerra.

De repente, um grupo vindo de fora, mais precisamente da Granja Santana, irrompe no espaçoso salão, sob os aplausos das dezenas de anônimos, parte deles donos de cargos comissionados, que até então perambulavam pelo lugar para serem percebidos pelos olhares vigilantes dos chefes.

A expressão do governador, logo se percebeu, não parecia nem de longe alegre, como a situação exigia, afinal aquele era um momento longamente esperado. “Deve ser o cansaço, um homem sempre tão alegre”, prensou um assessor. Um bayeense trazido pela prefeita e nomeado para a tarefa, correu para colocar Aguinaldo nos ombros, mas foi detido a tempo. “Não precisa, não precisa, ele engordou uns quilos nos últimos meses”, teria dito um assessor parlamentar doido para “trabalhar” no Senado. Aguinaldo continuava com a mesma expressão gelada de sempre, a calvície avançada, o nariz protuberante, a pele lisinha, quase rosa, de quem, faz tempo, não via o sol.

Todos sentam à mesa. A falta de empolgação já era notável, impossível de disfarçar com sorrisos, porque sorrisos era tudo que não passava por aqueles rostos, sobretudo o de Cícero Lucena e Messinho, ambos com cara de enterro. “Deve ser o cansaço”, pensou um secretário da prefeitura de João Pessoa gordinho, que vive pulando de barco em barco. “Esse governador não ri nem nessas horas?”, pensou outro cabo eleitoral que não sabia direito o motivo para estar ali, àquela hora, próximo do almoço.

Chegou o momento da fala tão esperada, a fala de Aguinaldo, a fala que daria finalmente o veredito para o início da campanha, que Cícero Lucena tão ansiosamente apregoara como certa, e enterraria de vez as especulações sobre a disposição de Aguinaldo ser ou não candidato – as más línguas não cansavam de repetir que o que Aguinaldo tinha mesmo era medo de enfrentar Ricardo Coutinho.

Sob aplausos, enfim Aguinaldo se levantou, pegou o microfone. Ele diz: “bom dia” para a plateia. Alguém responde, empolgado, alto, voz de animador de comício:

– Bom dia, Senador!

Aguinaldo deu um sorriso amarelo. Fez os agradecimentos de praxe, disse que conversou com Deus naquela manhã, e, depois de muito suspense, de muita enrolação, acabou anunciando a seguinte decisão:

Notaram a expressão de desalento de Cícero? A prefeita de Bayeux ficou tão desorientada que sequer bateu palma e deve ser pensado: “E agora?” A tristeza de João Azevedo nem saiu na foto.

Agora, me respondam: por que o governador João Azevedo aceitou participar dessa pantomima, que só fez diminuí-lo a um tamanho menor do que o que ele ostentava até a manhã de ontem? O pior é que o João Azevedo já sabia da decisão que seria anunciada, pois, como Aguinaldo Ribeiro fez questão de revelar em entrevistas logo depois do anúncio, ambos se reuniram antes na residência do governador.

Não sei se foi intencional, mas o que Aguinaldo Ribeiro obrigou o governador a fazer foi participar de um ato público de humilhação, já que, considerando a decisão anunciada, o único que tinha a obrigação de lá estar era o deputado federal do Progressistas. João Azevedo foi à casa de festas para uma festa política e participou de um enterro, não só da candidatura a senador de Aguinaldo Ribeiro, mas com a alma da sua reeleição encomendada. E, mesmo assim, aceitou participar da pantomima.

Se a Paraíba tivesse um governador com autoridade política, preocupado em preservar a dignidade do cargo que ocupa, cioso com a imagem de sua própria liderança, teria se recusado a ir ao ato de ontem. Mas, o governador que temos é João Azevedo, um governador reconhecidamente sem liderança política, sem autoridade, sem amor-próprio, sem coragem, enfim. E lá estava ele, inerte, aceitando ser o joguete nas mãos das velhas raposas políticas.

Enfim, a única coisa que Aguinaldo Ribeiro fez questão de deixar claro foi que João Azevedo é um comandante que nada comanda, um governador que, há quatro meses de uma eleição, não conhece sequer seus companheiros de chapa e, pelo jeito, vai continuar assim por mais tempo, sem ter a menor ideia de quem será seu vice nem muito menos seu candidato a senador.

Nas mãos de Aguinaldo Ribeiro e Cícero Lucena, João Azevedo se transformou em um peão no tabuleiro dos dois, que será útil até quando não prejudicar seus objetivos eleitorais.

A candidatura de João Azevedo morreu ontem. Será que ele percebeu?

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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