JOÃO AZEVEDO NA COVA: da traição a Ricardo Coutinho à aliança com Aguinaldo Ribeiro e Cícero Lucena

Como João Azevedo permitiu que seu grupo político mergulhasse na crise em que vive, hoje? Ontem, por exemplo, foi a vez do presidente da Assembleia, Adriano Galdino, colocou mais gasolina no incêndio que se alastra na base de apoio do governador.

Pode ser que não, mas notaram que Galdino fez questão de filmar sua declaração e depois publicizá-la? Ou seja, temos dois grupos políticos numa luta fraticida que não deixa margem para qualquer reconcialiação futura.

Falta ao governador autoridade? Liderança? Experiência política? Planejamento? Quadros para assessorá-lo capazes de contribuir com análises mais precisas de conjuntura e projeções de cenários? Talvez a combinação de dessas ausências de atributos consiga explicar o fracasso político e administrativo de João Azevedo. E sua previsível derrota na eleição que se aproxima.

E não se trata apenas de incompetência para governar e tomar decisões políticas. Outra característica pessoal do governador, revelada desde os primeiros dias do governo, é seu conservadorismo. É isso que explica por que, desde os primeiros dias de governo, João Azevedo optado por romper com Ricardo Coutinho, o principal responsável por colocá-lo na cadeira de governador.

Essa dúvida sobre a lealdade de João Azevedo ao projeto político liderado na Paraíba por Ricardo Coutinho começou a ganhar contornos de desconfiança ainda na campanha presidencial do segundo turno de 2018. Já vitorioso em primeiro turno, João Azevedo se recusou a discursar no comício em apoio a Fernando Haddad, organizado em João Pessoa por Ricardo Coutinho. Aquela recusa já começava a mostrar o caráter do governador eleito, sua covardia e falta de lealdade, o que certamente não passou despercebido para Haddad, Gleisi Hoffman e, claro, para Lula.

João Azevedo começou a se revelar por completo nas primeiras ações da Operação Calvário, que foi deslanchada na Paraíba, talvez não por acaso, com uma reportagem do Fantástico em que um assessor da ex-secretária Livânia Farias recebia, segundo ele disse em delação premiada, uma caixa de vinhos recheada de dinheiro. Detalhe fundamental: o dinheiro era para financiar a campanha de João Azevedo.

A senha estava dada. Três meses após tomar posse, o rompimento com Ricardo Coutinho já era dado como certo, principalmente por alguns jornalistas que chamavam João Azevedo durante a campanha pela jocosa alcunha de “poste”. Os mesmos que passaram, de uma hora para outra, a tratá-lo como um homem do “diálogo”. João Azevedo abandonou Ricardo Coutinho à própria sorte, principalmente para os inimigos na imprensa e na política dominados pelo ódio político e sequiosos por vingança.

Foi aí que começou a direitização do governo. Como eu já disse por aqui em mais de uma ocasião, não foi obra do acaso a escolha pelo partido Cidadania feita por João Azevedo quando ele resolveu sair do PSB. O passo seguinte foi João Azevedo pular de canoa para reencontrar o velho amigo Cícero Lucena, que já tinha sido convencido a voltar para a política, depois de uma curta aposentadoria, pelo também amigo Aguinaldo Ribeiro. Ambos tão conservadores quanto João Azevedo.

Agora, sim, depois de tantos anos, João Azevedo estava em casa, entre os seus. Inebriado pelo poder, cercado por bajuladores, João Azevedo certamente foi convencido de que adquirira uma liderança política que nunca teve, que fazia um governo melhor que o de Ricardo Coutinho, que poderia montar a chapa que quisesse em 2022 e seus aliados apenas abaixariam a cabeça, em concordância. Lembram da história de que João Azevedo venceria em 2022 por WO? Esse foi certamente o maior sinal de alheamento da realidade política que alguém já manifestou nas últimas décadas por aqui — a única vez em que isso aconteceu foi em 1998, porque a disputa real foi resolvida na convenção do PMDN entre José Maranhão e Ronaldo Cunha Lima. É nisso que dá acreditar nas projeções de puxa-sacos.

Por isso, os outros parceiros de 2018, os que permaneceram com o governador, foram tratados com desdém, desprezados pela soberba delirante, excluídos pela nova aliança com Aguinaldo Ribeiro e Cícero Lucena na qual não existia espaço para mais ninguém além deles. Não se enganem, a soberba, a vaidade, a presunção é capaz de produzirem esse tipo de comportamento na política. Restaria a Efraim Filho, a Adriano Galdino, a Hugo Motta e Cia baterem palmas? Saber pela boca de Aguinaldo, como souberam, que não haverá lugar para eles na chapa dessa velha aliança?

A realidade fez os três acordarem quando o final de 2021 chegou e a eleição de 2022 entrou definitivamente na pauta dos partidos. E João Azevedo viu a oposição ganhar um tamanho incomum, considerando que na Paraíba as eleições sempre foram marcadas pela polarização política. E isso, por si só, sinaliza o quê? A inviabilidade eleitoral de João Azevedo, a fragilidade de sua base apoio, marcada pela absoluta ausência de uma liderança que lhe dê unidade e direção, e um governo sem realizações.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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