Nomeada por João Azevedo para a JUCEP-PB, Gregória Benário precisa explicar porque apoia Lucas Ribeiro e chama Ricardo Coutinho de “coronel”

A presidenta estadual do PCdoB, também presidenta da Junta Comercial do Estado da Paraíba, um cargo de confiança do governo estadual, Gregória Benário, resolveu brigar com a realidade.

Acionada pela imprensa.gov para comentar a decisão de apoiar as candidaturas de Veneziano Vital, ao governo, e Ricardo Coutinho, ao senado, tomada nacionalmente pela Federação Nacional da qual o seu partido faz parte, ao lado do PT e do PV, Gregória Benário  insistiu em dizer que nada está resolvido, mesmo sabendo que a decisão tomada ontem e comunicada pela presidenta da Federação, Gleisi Hoffman, foi tomada por unanimidade, portanto, com o voto do PCdoB, e é terminativa.

Gregória Benário, entretanto, não parou aí e, cumprindo o script, resolveu assumir o mesmo comportamento de ex-petistas que desejavam que o partido continuasse no governo de João Azevedo e resolveu também atacar Ricardo Coutinho, chamando o ex-governador, vejam só, de “coronel vestido de petista”.

O que justificaria a presidenta de um partido com a história do PCdoB se rebaixar dessa atacando Ricardo Coutinho de “coronel”. Pelo que sei, Ricardo tem a mesma origem social e política na classe média baixa de João Pessoa, virou farmacêutico, sindicalista e, como tal, começou sua vida pública como vereador, ascendendo na política paraibana até virar governador, sem jamais negar suas origens.

E para defender a reeleição de um governador que tem como candidato a vice, Lucas Ribeiro, cuja única vocação política demonstrada até agora para entrar na política foi ser filho de Daniella Ribeiro, sobrinho de Aguinaldo Ribeiro e neto de Enivaldo Ribeiro, uma família cujo poder econômico e político tem origens agrárias. Aliás, o nome de Aguinaldo Ribeiro foi herdado do avô, Aguinaldo Veloso Borges, que a Wikipedia descreve como “um latifundiário e político paraibano”. Pois bem, caso João Azevedo se eleja, Lucas Ribeiro será governador, no mais tardar, em 2026.

Fui militante do PCdoB entre 1984 e 1994. Ao longo desses anos, o partido apoiou e ajudou a eleger dois governadores (Tarcísio Burity e Ronaldo Cunha Lima) e rompeu com os dois. O PCdoB da Paraíba elegeu vereadores em João Pessoa (Renô Macaúbas) e em Campina Grande (Ivan Freire), e, em 1990, pela primeira e única vez, um deputado estadual, Simão Almeida. As seguidas derrotas, desde então, fizeram o PCdoB da Paraíba abandonar a política. Perdeu representatividade social e política, não projetou nenhuma liderança política e passou a viver à sombra das administrações.

Depois de 2005, por exemplo, o PCdoB da Paraíba passou a desempenhar um papel relevante na administração de Ricardo Coutinho, em João Pessoa. Isso até José Maranhão assumir o governo do estado, em 2009, após a cassação de Cássio Cunha Lima. Em 2010, o PCdoB não se fez de rogado e abandonou a aliança com Ricardo Coutinho para se perfilar na eleição ao lado de José Maranhão. Dois anos depois, com Ricardo Coutinho no governo do estado, aderiu ao bloco do então governador e apoiou a candidatura a prefeita de Estela Isabel, então no PSB.

O PCdoB não viu problema em aderir a Luciano Cartaxo, que à época era oposição a Ricardo Coutinho. A unidade entre Ricardo Coutinho e Luciano Cartaxo, em 2014, não criou maiores dificuldades para o PCdoB da Paraíba apoiar a reeleição de RC. Em 2016, na reeleição de Luciano Cartaxo, manteve-se firmemente ao lado do então prefeito. Em 2018, não foi possível manter-se nas duas canoas, e o PCdoB, assim como fizera em 2010, a maioria do preferiu as águas menos turvas do governo estadual, mas sem causar um racha público no partido.

O partido (comunista?) manteve o apoio a Ricardo Coutinho enquanto a traição de João Azevedo não se confirmou. Em maio de 2019, por exemplo, chegou a lançar uma nota de solidariedade ao ex-governador, assinada pela própria Gregória Benário, denunciando a Operação Calvário como uma ação organizada pela direita paraibana para atacar os “as organizações e lideranças do campo democrático e popular, sob pretexto de combate à corrupção.”

Segundo a nota do PCdoB da Paraíba assinada por Gregória Benário:

Esses setores nunca foram preocupados com corrupção, até porque são eles mesmos historicamente envolvidos com esta mazela. Seu objetivo é político! E para atingi-lo, ferem a Constituição do país e atropelam o Estado Democrático de Direito.

A nota continuou, lembrando do processo que condenou o ex-presidente Lula e que “tal prática se repete na Paraíba”.

No caso paraibano estes setores direitistas, tentando manter ou reconquistar espaços políticos, se valem de tais expedientes para atacar a liderança política de Ricardo Coutinho visando enfraquecê-lo e assim fragilizar o campo democrático e criar dificuldades para o governo do Estado.

(…)

Assim, o PCdoB paraibano manifesta sua mais firme solidariedade ao companheiro Ricardo Coutinho, ex-governador do Estado, presidente de Fundação João Mangabeira, alvo de ataques traiçoeiros e carregados de recalque e ódio. Ao mesmo tempo enaltece sua postura digna e corajosa, não se deixando intimidar com as ofensas de adversários locais nem com a arrogância que exala o Palácio do Planalto.

A defesa que o PCdoB fazia de Ricardo Coutinho não resistiu à traição do João Azevedo ao projeto político que o partido dizia fazer parte. Mesmo quando o governador saiu do PSB para ingressar no direitista Cidadania, o PCdoB da Paraíba não foi capaz de abandonar o governo.

Hoje, mesmo com a decisão nacional de apoiar as candidaturas de Veneziano Vital e Ricardo Coutinho, mesmo com o apoio declarado de Lula, mesmo com a aliança de João Azevedo com o bolsonarismo do Progressistas de Aguinaldo Ribeiro, mesmo com o alinhamento com o campo progressista de Veneziano Vital no Congresso, mesmo assim o PCdoB da Paraíba prefere a árvore frondosa do governo estadual.

Talvez esse comportamento explique por que o PCdoB da Paraíba não tem uma representação para chamar de sua desde que Simão Almeida não foi reeleito, em 1994. Talvez isso explique a votação obtida pela própria Gregória Benário, na eleição para a Câmara de Vereadores de João Pessoa, em 2020, quando a mesma foi votada por apenas 1.169 eleitores, ficando ela na 83º posição.

Talvez tenha chagado a hora do PCdoB mudar de rumo caso pretenda ter alguma relevância política na Paraíba.

Ah, vale lembrar: Gregória Benário é presidente da Junta Comercial da Paraíba, nomeada por João Azevedo.



Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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