Por que Ciro venceu o debate da Band; por que Bolsonaro foi o grande perdedor

Para tentar realizar a mais objetiva análise de um debate entre candidatos/as a qualquer cargo eletivo, sobretudo à Presidência da República, a primeira tentação que devemos evitar é não se deixar levar por nossas afinidades políticas e ideológicas. E até corporativas — e eu falo isso mais como servidor público que está há seis anos sem reajuste salarial do que como professor.

Movido por essa disposição, acompanhei do debate entre os/as presidenciáveis realizado ontem pelo consórcio Band-Cultura-Uol. E devo dizer que não foi preciso de minha parte realizar um grande esforço de distanciamento para concluir que Ciro Gomes foi o vencedor do debate e Jair Bolsonaro o grande perdedor.

Simone Tebet soube aproveitar bem o fato de ser uma das duas mulheres candidatas, beneficiada pela atitude beligerante e descortês de Jair Bolsonaro, principalmente quando sua interlocutora é uma mulher — e ele agiu dessa maneira em várias ocasiões durante o debate.

No caso de Lula, é preciso também reconhecer que ele não se saiu tão bem como na entrevista concedida ao Jornal Nacional na última quinta-feira, quando ele parecia mais tranquilo e conseguiu dar respostas mais adequadas aos duros questionamentos feitos. Ontem, Lula mostrou que seu calcanhar de Aquiles emocional se mostra quando o tema corrupção é mencionado por seus adversários mais diretos, como fizeram Bolsonaro e Ciro.

Bolsonaro abriu o debate tratando, claro, da questão, mencionando os desvios da Petrobras. Lula começou bem, lembrando que foi durante o seu governo onde as condições para o combate à corrupção foram criadas — paradoxalmente, sem os governos do PT a Lava Jato não teria sido criada, revelando alguns equívocos de algumas leis propostas.

No seguimento do debate, Lula abandonou o enfrentamento da questão e passou a defender os feitos do seu governo em outras áreas, deixando margem para interpretações sobre o quão incômodo é esse debate. Lula, por exemplo, poderia ter ido para o enfrentamento da Lava Jato e mostrado as ligações carnais que Sérgio Moro e Deltan Dallagnol tinham com Jair Bolsonaro. Mais ainda: Lula nunca mencionou um fato de grande relevância para revelar seu envolvimento direto com os casos investigados na Lava Jato: nenhum político no Brasil, sobretudo ex-presidentes, foi tão investigado quanto foi Lula. Repito: nenhum. E Lula controlou dezenas de trilhões de reais do orçamento federal ao longo de oito anos. E mesmo assim, a Lava Jato processou o ex-presidente por um apartamento de pouco mais de 200 m², localizado numa praia decadente do litoral paulista, e um pequeno sítio onde ele descansava nos fins de semana – em nenhum dos dois casos, uma prova sequer foi apresentada que mostrem ser Lula o dono dos imóveis, pelo contrário.

Enfim, a performance de Lula no debate ficou marcada pelo baixo desempenho quando ele foi obrigado a enfrentar o que, para ele, é o tema central da campanha, o samba-de-uma-nota-só de seu principal adversário, excetuando-se a pauta moral e de costumes, essa desmoralizada pelas atitudes do próprio presidente — aliás, devo acrescentar que 2018 foi um ano atípico em que esse debate, potencializado por outras razões, acabou por prevalecer no debate eleitoral. Lula também teve seus bons momentos, eu lembro aqui de dois: o primeiro, quando ele colocou Bolsonaro nas cordas lembrando que não existe previsão orçamentária para manter o pagamento dos R$ 600 reais para Auxílio Brasil; o segundo, foi quando, respondendo à candidata do União Brasil, Soraya Thronicke, que disse não terem existido os avanços sociais mencionados por Lula durante o seu governo, o ex-presidente sugeriu que ela perguntasse ao “seu jardineiro”, à “sua empregada doméstica”, ao “seu motorista”, mostrando ser a candidata uma das tantas privilegiadas que incomodadas com as melhorias sociais promovidas pelos governos do PT. De qualquer maneira, tendo sido o primeiro debate, ajustes pode e deverão ser feitos. A grande questão, então, é: o desempenho de Lula abaixo da expectativa gerada pela entrevista ao Jornal Nacional o fará perder votos? Tendo a achar que não porque Lula, se não foi brilhante como Ciro Gomes, não teve um desempenho desastroso, como Jair Bolsonaro.

No caso de Jair Bolsonaro, ele foi apenas mais do mesmo, ou seja, ele foi… Jair Bolsonaro. É impressionante o quanto ele ainda se mostra incapaz de evitar sua inequívoca misoginia, sua manifesta falta de empatia, seu “coração de pedra” como lembrou Ciro Gomes, sua absoluta ausência de civilidade, o que se desdobra em sua falta de escrúpulos para lidar com dados e estatísticas sobre a realidade econômica e social do país. Claro que o Bolsonaro de 2022 não é o mesmo Bolsonaro dos debates dos quais participou há quatro anos, que mostrava sua absoluta incapacidade para administrar o que quer que fosse, mais ainda um pais complexo como o Brasil. A experiência adquirida no exercício da Presidência, porém, não permitiu que Bolsonaro fosse capaz de, nem por razões eleitorais, deixar de ser um pouco ele mesmo. A perda das estribeiras com a jornalista Vera Magalhães, a maneira descortês com que enfrentou os questionamentos de Simone Tebet, revelam o incômodo que é, para ele, debater de igual para igual com mulheres — ele agiria do mesmo jeito se as duas fossem homens? Além da maneira indecente como continua a tratar a pandemia e a negar a fome e a miséria espalhadas pelo país. Fora dos grupos de Whatsapp, onde ele continua a reinar soberano, a realidade dura do seu governo bate na cara dos brasileiros em todos os minutos. E sem respostas para essa realidade terrificante, Bolsonaro continua seu esforço de tornar cor-de-rosa a penumbra vazia que é um país sem esperanças, da exploração cruel do trabalhador, sem direitos trabalhistas e de baixíssima remuneração. E o presidente se mostra incapaz de sequer simular algum sentimento de solidariedade com os que sofrem.   

O bom desempenho de Ciro Gomes não foi exatamente uma surpresa pelo programa que ele defende e pela maneira consistente como apresenta suas ideias para o país. Ciro começou o debate confrontando Jair Bolsonaro em razão de sua afirmação de que não existe fome no Brasil. Na sua réplica, o pedetista mencionou números de pesquisas que confirmam que a fome atinge mais de 30 milhões de pessoas no país, e mais de 120 milhões não fazem hoje as três refeições, incluindo nesse número ¼ de nossas crianças. Ciro defendeu em seguida um programa de renda mínima integrado à uma política de previdência em que cada família que vive abaixo da linha de pobreza terá direito a um benefício de R$ 1.000,00, com recursos financiados, entre outras fontes, pela tributação dos super-ricos no Brasil. O ponto alto de Ciro Gome no debate, entretanto, foi quando Jair Bolsonaro resolver perguntar-lhe, vejam o tamanho do erro, sobre as políticas do seu governo destinadas às mulheres — ele poderia ter feito a pergunta às duas candidatas que ainda não tinham sido escolhidas para responder, mas preferiu escolher Ciro. E Ciro deitou e rolou, lembrando das declarações feitas por Bolsonaro que evidenciam e dão razão a quem o chama de misógino. Na réplica, Bolsonaro resolveu lembrar do episódio da campanha de 2002 envolvendo a atriz Patrícia Pillar, então esposa de Ciro Gomes, o que deu ao pedetista a oportunidade de se mostra o exato oposto do Bolsonaro, lembrando que já pediu desculpas “um milhão de vezes” pelo ocorrido e continuará pedindo, reconheceu ter sido uma manifestação machista, mas, com a oportunidade oferecida, emendou com dureza que Bolsonaro corrompera as ex-esposas e os filhos na política, e aproveitou para lembrar que aprendeu com o episódio, ao contrário do presidente, que “não aprende nunca” porque não “tem coração”, rememorando em seguida suas declarações durante a pandemia.

Ciro Gomes ganhará votos? Talvez dos indecisos. Ele e Simone Tebet, a outra ganhadora com o debate. E isso não é uma boa notícia para a campanha de Lula, que deseja resolver a parada ainda no primeiro turno.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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