Por que decidi aderir à campanha do voto útil e trocar Ciro Gomes por Lula

Votei e fiz campanha para Ciro Gomes em 2018. Foi a primeira vez que não votei em um candidato do PT à Presidência — em todas as eleições anteriores, desde 1989, havia votado cinco vezes em Lula e duas em Dilma Rousseff. Ao longo dos últimos anos, reforcei a convicção de que tomei a decisão correta. Continuo achando que a união do campo progressista em torno do candidato do PDT naquela eleição teria sido a melhor decisão para a conjuntura difícil para a esquerda brasileira, porém, infelizmente, não foi o caminho do PT, PSB e PCdoB. E todos fomos derrotados pela extrema-direita de Jair Bolsonaro.

A candidatura de Ciro Gomes em 2018 foi uma lufada de ar puro numa esquerda acomodada com o status político adquirido, aparentemente resignada com uma correlação de forças cada vez mais desfavorável no Congresso e na sociedade, e, o que é pior, cada vez mais adaptada. Ao ponto de ainda nos causar um certo constrangimento ver um candidato com origens distantes de um campo que sempre se reivindicou “popular”, colocar no centro do seu diagnóstico e do seu programa de governo uma crítica à economia política do neoliberalismo: concentração bancária, “rentismo”, comprometimento cada vez maior do orçamento federal com a dívida pública, sintoma cada vez mais evidente da doença que corrói os fundamentos de uma nação marcada historicamente por desigualdades gigantescas, que se aprofundaram nos últimos seis anos, a desindustrialização e a consequente e cada vez maior dependência do agronegócio – não por acaso, o maior sustentáculo do bolsonarismo.

Enfim, a maior ousadia de Ciro Gomes foi retomar, sem nenhum embaraço, mais ainda por ter ele a dimensão política e intelectual que adquiriu na política brasileira, uma crítica legitimamente de esquerda e à esquerda ao neoliberalismo. Ciro Gomes amadureceu ainda mais sua crítica num livro que todo brasileiro deveria ler — Projeto Nacional: O dever da esperança — no qual ele elabora, sorvendo a influência poderosa de um estruturalismo renovado, um neokeynesianismo latino-americano, um diagnóstico da crise brasileira, propondo em seguida ideias originais para seu enfrentamento e superação. Foi surpreendente constatar, por outro lado, atitudes que, ao invés de enfrentarem as críticas que Ciro faz em seu livro e em entrevistas de largo alcance, onde ele fala, de maneira inédita, para milhões, ver por parte de intelectuais de esquerda a recusa ao debate, substituindo a contra-argumetação por atitudes inexplicavelmente zangadas, talvez um sintoma preocupante de uma certa prostração ideológica.

Só o fato de Ciro ter nos colocado a pensar sobre alternativas econômicas e sobre projetos de nacionais de desenvolvimento, ele já cumpriu seu papel histórico como político e como intelectual, porque era fosse esse fulgor provocativo que nos faltava.

Ciro, entretanto, não foi capaz de perceber a dimensão e a amplitude dos efeitos destrutivos e corrosivos do bolsonarismo na economia e na sociedade nacionais, e, portanto, na política, que fez do atual presidente, ele que sempre se diz “patriota” e jamais “nacionalista”, o maior adversário de uma nação sob o risco da desagregação completa, porque é isso que está em curso. Sob hipótese alguma, devemos repetir o erro de 2018 e subestimar o bolsonarismo, hoje com uma base social mais ampla, mais organizada e muito mais enraizada. Foi essa realidade,percebida desde o começo por Lula, que passou a exigir uma estratégia de frente ampla para salvar o que ainda resta de país do entreguismo reacionário de uma extrema-direita aventureira, antinacional e antipovo. Ciro em parte sabia que a volta de Lula à política, de novo elegível, de novo candidato, seria um desaguadouro para onde confluiriam todas as forças preocupadas não apenas em salvar a democracia brasileira, mas o que nos resta de nação.

A alternativa Ciro Gomes deixou de ser viável, portanto, como polo de aglutinação para enfrentar o bolsonarismo. Com Lula, Ciro Gomes ficou de novo, e ainda mais, isolado à esquerda; com seu programa anti-neoliberal, sem espaço para qualquer diálogo com direita tradicional.

Numa conjuntura nacional e mundial marcada por impasses civilizatórios e geopolíticos, de uma transição de hegemonia que não sabemos aonde vai dar, como a atual, devemos saudar que tenhamos uma liderança nacional e popular, com a dimensão internacional de Lula, sobretudo na América Latina, para liderar, em bases mínimas, o esforço de reunificar o país. Entre os países que vivem impasses como o Brasil, nenhum tem a fortuna de possuir alguém com o impressionante vínculo que Lula ainda mantém com os muito pobres, com os trabalhadores assalariados, com inserção na classe média progressista dos grandes centros, com os setores organizados, com capacidade de diálogo com partidos e lideranças de um lado ao outro do nosso espectro político e ideológico do país.

Tudo isso se conformou numa conjuntura que inviabilizou as possibilidades de crescimento de Ciro Gomes para além do contingente de milhões de brasileiros que ele conseguiu, praticamente sozinho, juntar sobre sua influência. Sem inserção real, isto é, sem possibilidades de vitória na eleição, o desafio que restou a Ciro é não sair menor do que entrou na campanha presidencial de 2022, o que será, caso se confirme esse prognóstico, uma tragédia, não para Ciro, mas para o que ele passou a representar para o pensamento de esquerda no Brasil, para a generosidade do discurso em defesa da nação, que é a marca que ele vai deixar para as atuais e as futuras gerações.

Se Ciro Gomes for capaz de deixar as divergências de lado, retirar sua candidatura e anunciar o apoio a Lula em um momento tão grave para a história do país, isso certamente o tornaria ainda maior do que ele se tornou, sem que isso represente uma adesão ao que ele critica. Por fim, caso Ciro Gomes seja capaz de colocar acima do seu legítimo projeto de governar o país, a necessidade histórica para a nação, que é derrotar o bolsonarismo, ele continuará mais imprescindível do que nunca ao país e ao debate público. E mais gente estará aberta a escutar o que ele tem a dizer para salvar o país do desastre.

Gostaria muito de anunciar essa mudança de voto ao lado de Ciro Gomes, mas acredito que não há mais tempo a perder: AGORA É LULA!

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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