POR QUE GOLPISTAS CIVIS sempre trataram as Forças Armadas e as polícias como seus cães de guarda

Desde a última segunda-feira, bolsonaristas ocupam o trecho da avenida Epitácio Pessoa, que fica em frente ao Grupamento de Engenharia, para pedir às Forças Armadas a manutenção de Jair Bolsonaro na Presidência, já que, pelas urnas, o atual presidente não conseguiu.

Repare nos gestos e modos de se vestir, nas palavras de ordem que gritam, na violência de sua retórica. Durante os últimos anos, essas pessoas foram assombrados pelo medo do Brasil se tornar uma “Venezuela”, sem se darem conta, ou talvez por isso mesmo, de que apoiavam um presidente que sempre louvou a ditadura civil-militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985, que defendeu torturadores, atacou mulheres, negros, gays e nordestinos, entre tantas violências de cunho fascista e racista.

Portanto, é um erro tratar essa turma como desajustados, desinformados ou maus perdedores. A maioria ali sabem o que está fazendo. São criminosos que atentam contra o resultado legítimo da eleição e pedem uma ruptura institucional, apelam, como sempre fizeram, para o golpe, de preferência militar, quem sabe para ver o “fantasma do comunismo” de novo combatido com as violências que nunca recaem contra eles, que parecem ter salvo-condutos que os deixam imunes à lei.

É como se o povo brasileiro existisse apenas para dizer-lhes amém, para trocar suas roupas de cama, para lavá-las e passá-las, para limpar seus banheiros, fazer sua comida.

Boa parte dessa gente que se agrupa em frente a um quartel do Exército, acostumou-se a tratar militares das Forças Armadas e das polícias como seus cães de guarda, serviçais de suas vontades políticas, protetoras do seu patrimônio, que podem atirar à vontade em favelas, mas jamais em bairros ricos. Parte expressiva dos que estão em frente ao Grupamento de Engenharia, presume-se, são majoritariamente”nordestinos”.

Por que nunca os incomodou as agressões xenófobas que são desferidas a cada eleição presidencial por bolsonaristas contra os indistintamente “nordestinos”, chamando-os de analfabetos, passa-fome, vendedores-de-rede, garçons que só existem para servi-los em suas temporadas de turistas, como se pobre e assalariado só existissem por aqui – quem venceu na cidade mais rica do país? Quem venceu no segundo estado mais rico? Aliás, a votação de Lula no Nordeste foi quase igual à obtida por ele no Sudeste.

Não, esses cabeças chatas que vociferam seu ódio na frente do Grupamento de Engenharia apenas não se envergonham de se perfilarem ao lado dessa canalha racista e fascista do Centro-Sul, que comanda o bolsonarismo – como os latino-americanos ricos que tentam replicar por aqui o idiotismo trumpista e são desprezados e repelidos por eles, – como até repetem seus impropérios contra nós, os paraíbas. Fazem isso porque não se sentem nordestinos, não se identificam com o que somos, com o popular que nos dá identidade.

São os mesmos que assombram o país porque ressuscitam a cada geração. São os mesmos que nunca aceitaram a derrota para Getúlio Vargas e o levaram ao suicídio, em 1954.

São os mesmo que jamais aceitaram Jango na Presidência e o derrubaram com um golpe de milicos que durou mais de 20 anos.

Esses mesmos voltaram encarnados (ops!) exatamente 60 anos depois, quando perderam para a dignidade de Dilma Rousseff, votando em Aécio Neves “contra a corrupção” (nunca foi contra a corrupção!) e a derrubaram com outro golpe, de outra modalidade, dessa vez parlamentar – golpe, lembre-se, comandado por uma legião de corruptos, a maioria deles assumiu o poder com Jair Bolsonaro. Eis um resumo do caráter dessa gente.

E teriam perdido para Lula, em 2018, caso um juiz mau-caráter não tivesse feito o serviço sujo de condenar o ex-presidente, sem provas e em tempo recorde, prendê-lo ilegalmente antes da eleição e se tornar o herói dessa gente.

Os episódios que acompanhamos depois do anúncio da vitória de Lula no último domingo são, portanto, mais um capítulo dessa história de golpes, de golpes contra governos que falam ao povo e que se comunicam com ele, que de alguma maneira resistem em aceitar que essa gente, que está agora em frente ao Grupamento de Engenharia, continuem a acumular as riquezas, a menor parte, é verdade, produzidas por esse país de miseráveis.

Lula venceu domingo. A outros Lulas haverão de vir enquanto formos um país de vira-latas. E esse é um mistério que o fascismo que transborda da cabeça dessa gente que carrega a bandeira do país nas costas jamais entenderá.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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