Em entrevista à Folha, João Azevedo atribui derrotas do PSB em Pernambuco e RJ à aliança com PT

João Azevedo concedeu uma das mais rasas entrevistas de um governador da Paraíba ao jornal Folha de São Paulo. Vou me ater a dois pontos da conversa.

Perguntado sobre os fatores que determinaram a derrota de Jair Bolsonaro na eleição do domingo passado, João Azevedo citou três fatores, dois deles na reta final: a ação da PRF nos dias que antecederam a eleição que, segundo ele, evitou “que tivesse um número maior de pessoas votando”; a “ação de Roberto Jefferson” e a “disseminação de mensagens no guia [eleitoral] de Bolsonaro era muito contundente em um nível de disputa que acho que não faz bem à democracia.” O Brasil não tem fome, desemprego, desamparo, a educação e a saúde estão uma maravilha. Para quem já teve como governador Antônio Mariz, Cássio Cunha Lima, Ricardo Coutinho, Tarcísio Burity…

Diante do vazio da resposta, o entrevistador resolveu dar uma ajudinha: “Acredita que a conduta do presidente na pandemia teve impacto negativamente no resultado eleitoral dele?”. João Azevedo não só concordou, como acrescentou à resposta elementos que talvez expliquem suas dúbias relações com o bolsonarismo e com o governo Bolsonaro. Primeiro, ele mencionou que as “disputas constantes contra governadores” desgastaram o governo, bem como o incentivo de “métodos diferentes do que a ciência recomendava”. Para o governador, se Bolsonaro “tivesse tido uma postura mais humanitária durante a pandemia, talvez tivesse até ganhado a eleição”, como se o negacionismo não fosse parte de um modus operandi que se afirma pela deslegitimação da ciência e do comportamento racional. Sem isso, a ordem unida do exército bolsonarista não existiria.

João Azevedo na certa não considera relevante o uso escancarado da máquina federal para o aumento da votação de Jair Bolsonaro e todas as ilegalidades cometidas em ano de eleição, como a chamada (pela grande mídia) PEC Kamikaze, um pacote de quase R$ 40 bilhões para aumentar nos últimos meses do mandato do atual presidente e às vésperas da eleição, o que é proibido por lei, e permitiu o aumento nos benefícios do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 mensais, o cadastramento de mais de 1,6 milhão de novas famílias, o auxílio de R$ 1.000 aos caminhoneiros, o aumento do Auxílio-Gás.

João Azevedo não considera que ações desse tipo ajudem a desequilibrar uma eleição, o que tornaria ainda mais grandiosa a vitória de Lula. Ou João Azevedo está desinformado ou talvez considere que legítimos o uso por Bolsonaro desses meios para se reeleger.

Mais inusitada ainda foi a resposta à pergunta: “O PSB venceu para os governos de Paraíba, Maranhão e Espírito Santo, mas perdeu no Rio de Janeiro e em Pernambuco. Qual a reflexão que fica para o partido?”.

Resposta de João Azevedo: “O PSB vai ter que rever sua posição inclusive quanto partido” (sic) e “reavaliar as possíveis alianças”. Para o governador, se o “PSB acertou em vários estados, entretanto, em função de alianças, até com o próprio PT em determinados estados, [isso] levou o PSB a ter derrotas no Rio de Janeiro e em Pernambuco.”

Apesar do raciocínio tortuoso, fica óbvio que João Azevedo não leva em conta o desgaste do governo e do governador de Pernambuco, Paulo Câmara, como fator determinante para a derrota do candidato do PSB, Danilo Cabral, que sequer foi para o segundo turno e ficou em quarto lugar. Para João Azevedo é mais fácil atribuir à aliança com o PT a responsabilidade pela derrota, do que se depreende que ele considera o fato de não ter feito aliança com o PT na Paraíba a principal razão de sua vitória.

Os sem-voto que ainda estão filiados ao PT e que querem permanecer no governo não vão dormir hoje.

Publicado por Flavio Lucio Vieira

Professor do Departamento de História da UFPB, doutor em Sociologia.

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